Antevisão do Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908, Dom Manuel fututo Rei estranhou a agitação

S.A.R. Dom Manuel II

O Regicídio visto por João Franco

João Franco Castello-Branco (1855-1929) teve um percurso meteórico no complexo panorama político português na transição do século XIX para o século XX. Deputado em 1884, ministro de vários Executivos, líder do pequeno Partido Regenerador-Liberal em 1903, chega finalmente a Presidente do Conselho em Maio de 1906, através de uma aliança com o Partido Progressista.

Quando essa aliança é quebrada em Maio de 1907, D. Carlos, dissolve a Câmara dos Deputados e mantem João Franco no desempenho das suas funções, iniciando-se uma política de reformas e descentralização administrativa, conduzida sob um regime de rígida autoridade, que rapidamente gerou um clima de desconfiança, perseguições políticas e ódios por parte dos monárquicos oposicionistas e republicanos que conduziria pouco tempo depois ao assassinato do monarca e do seu filho mais velho e à demissão e exílio de João Franco.

Em 1924, após longos anos de afastamento da vida política, João Franco faz publicar um livro de assinalável sucesso, no desiludido Portugal de então, as “Cartas D’El-Rei D. Carlos I” no qual transcreve e comenta a correspondência trocada com o soberano, entre Maio de 1906 e Dezembro de 1907. No capítulo final da obra, João Franco relata a forma como viveu os dramáticos momentos do Regicídio…

João Franco e o Regicídio


«(…) A minha carruagem era a quarta da fila, logo atrás do automóvel do infante D. Afonso. Surpreendido e inquieto pelo ruído de um tiro de revólver ou de Browning, que manifestamente vinha do lado da estátua equestre, quando a minha carruagem passava em frente à porta do Ministério da Guerra, e para logo sentindo apertar-se-me o coração, por àquele tiro, evidentemente um sinal, se ter imediatamente seguido um nutrido e rápido tiroteio para as bandas do Ministério das Obras Públicas, que as equipagens iam defrontando, – saltei do meu carro e corri para o lado de onde o tiroteio partira. Nessa ocasião ia passando também, a correr no mesmo sentido, o par do Reino António Costa, e ambos seguimos envolvidos na espessa onda de povo que fugia para as ruas do Ouro e do Arsenal. Quase ao dobrar a esquina para esta última rua, viu-me o director do Banco de Portugal, meu velho e dedicado amigo Gomes Neto, que, levantando os braços, exclamou: “Oh! João Franco, mataram o rei…” Ao que um polícia, ao nosso lado, acrescentou – “E mataram também o príncipe real!… Mas matámos já os que os mataram.” E outro polícia ainda, com uma carabina na mão, e mostrando-ma, disse: – ” Foi com esta que mataram o príncipe. Vou levá-la ao meu comandante.” Perguntei para onde haviam seguido as carruagens, e ouvindo que para o Arsenal, lá me dirigi pela rua desse nome, a pé como viera até ali, sempre envolvido com populares que, apressados e inquietos, procuravam afastar-se, receando o mais que pudesse haver.»

In Franco Castello-Branco, João, Cartas D’El-Rei D. Carlos I a João Franco Castello-Branco seu último Presidente do Conselho, Lisboa, 1924

João Franco

. 28 de Janeiro de 1908, Dom Manuel estranhou a agitação

. O Regicídio visto por D. Manuel II


A 1 de Fevereiro de 1908, no regresso de mais uma estadia em Vila Viçosa, o rei D. Carlos e o princípe herdeiro D. Luís Filipe, são assassinados em pleno Terreiro do Paço. De um só golpe, Costa e Buiça, decapitavam a monarquia portuguesa, deixando o trono nas mãos de um pouco preparado D. Manuel, sem capacidade nem margem de manobra para gerir uma situação política explosiva que culminaria com a queda da monarquia e a implantação da República a 5 de Outubro de 1910.
A 21 de Maio de 1908, quase 4 meses após o regicídio, o já então rei D. Manuel II, descreveu a forma como viveu este trágico acontecimento, sob o título de “Notas absolutamente íntimas“, de que apresentamos o excerto que se segue.
 
 

 

 



«Há já uns poucos de dias que tinha a ideia de escrever para mim estas notas intimas, desde o dia 1 de Fevereiro de 1908, dia do horroroso atentado no qual perdi barbaramente assassinados o meu querido Pae e o meu querido Irmão.

Isto que aqui escrevo é ao correr da pena mas vou dizer franca e claramente e também sem estilo tudo o que se passou.

Talvez isto seja curioso para mim mesmo um dia se Deus me der vida e saúde. Isto é uma declaração que faço a mim mesmo.
Como isto é uma historia intima do meu reinado vou inicia-la pelo horroroso e cruel atentado.
 
No dia 1 de Fevereiro regressavam Suas Magestades El-Rei D. Carlos I a Rainha a senhora D. Amélia e Sua Alteza o Principe Real de Villa Viçosa onde ainda tinha ficado.
 
 

 

Na capital estava tudo num estado excitação extraordinária: bem se viu aqui no dia 28 de Janeiro em que houve uma tentativa de revolução a qual não venceu.
Nessa tentativa estava implicada muita gente: foi depois dessa noite de 28, que o Ministro da Justiça Teixeira d’Abreu levou a Villa Viçosa o famoso decreto que foi publicado em 31 de Janeiro. Foi uma triste coincidência ter rubricado nesse dia de aniversário da revolta do Porto.
Meu Pae não tinha nenhuma vontade de voltar para Lisboa. Bem lembro que se estava para voltar para Lisboa 15 dias antes e que meu Pae quis ficar em Villa Viçosa: Minha Mãe pelo contrário queria forçosamente vir.
Recordo-me perfeitamente desta frase que me disse na vespera ou no próprio dia que regressei a Lisboa depois de eu ter estado dois dias em Villa Viçosa.

 

Mas voltando ao tal decreto de 31 de Janeiro.
Já estavam presas diferentes pessoas politicas importantes. António José d’Almeida, republicano e antigo deputado, João Chagas, republicano, João Pinto dos Santos, dissidente e antigo deputado, Visconde de Ribeira Brava e outros.
 

 

Como disse mais atrás eu estava em Lisboa quando foi 28 de Janeiro; houve uma pessoa minha amiga (que se não me engano foi o meu professor Abel Fontoura da Costa) que disse a um dos Ministros que eu gostava de saber um pouco o que se passava, porque isto estava num tal estado de excitação.
 

 

O João Franco escreveu-me então uma carta que eu tenho a maior pena de ter rasgado, porque nessa carta dizia-me que tudo estava sossegado e que não havia nada a recear! Que cegueira!

Mas passemos agora ao fatal dia 1 de Fevereiro de 1908 sábado. De manhã tinha eu tido o Marquês Leitão e o King. Almocei tranquilamente com o Visconde d’Asseca e o Kerausch.
Depois do almoço estive a tocar piano, muito contente porque naquele dia dava-se pela primeira vez “Tristão e Ysolda” de Wagner em S. Carlos. Na vespera tinha estado tocando a 4 mãos com o meu querido mestre Alexandre Rey Colaço o Septuor de Beethoven, que era, e é uma das obras que mais aprecio deste génio musical. Depois do almoço à hora habitual quer dizer às 13:15h comecei a minha lição com o Fontoura da Costa, porque ele tinha trocado as horas da lição com o Padre Fiadeiro. A hora do Fontoura era às 17:30h. Acabei com o Fontoura às 15 horas e pouco depois recebi um telegrama da minha adorada Mãe dizendo-me que tinha havido um descarrilamento na Casa-Branca, mas não tinha acontecido nada, mas que vinham com três quartos de hora de atraso.
Vendo que nada tinha acontecido dei graças a Deus, mas nem me passou pela mente, como se pode calcular o que havia de acontecer.
Agora pergunto-me eu aquele descarrilamento foi um simples acaso? Ou foi premeditado para que houvesse um atraso e se chegasse mais tarde?
Não sei. Hoje fiquei em dúvida.
Depois do horror que se passou fica-se duvidando de muita coisa.
Um pouco depois das 4 horas saí do Paço das Necessidades num “landau” com o Visconde d’Asseca em direcção ao Terreiro do Paço para esperarmos Suas Magestades e Alteza. Fomos pela Pampulha, Janelas Verdes, Aterro e Rua do Arsenal. Chegámos ao Terreiro do Paço.
Na estação estava muita gente da corte e mesmo sem ser. Conversei primeiro com o Ministro da Guerra Vasconcellos Porto, talvez o Ministro de quem eu mais gostava no Ministério do João Franco. Disse-me que tudo estava bem.
Esperamos muito tempo; finalmente chegou o barco em que vinham os meus Paes e o meu Irmão. Abracei-os e viemos seguindo até a porta onde entramos para a carruagem os quatro. No fundo a minha adorada Mãe dando a esquerda ao meu pobre Pae. O meu chorado Irmão deante do meu Pae e eu deante da minha mãe. Sobretudo o que agora vou escrever é que me custa mais: ao pensar no momento horroroso que passei confundem-se-me as ideias. Que tarde e que noite mais atroz! Ninguem n’este mundo pode calcular, não, sonhar o que foi.creio que só a minha pobre e adorada Mãe e Eu podemos saber bem o que isto é! vou agora contar o que se passou n’aquella historica Praça.
Sahimos da estação bastante devagar. Minha mãe vinha-me a contar como se tinha passado o descarrilamento na Casa-Branca quando se ouvio o primeiro tiro no Terreiro do Paço, mas que eu não ouvi: era sem duvida um signal: signal para começar aquella monstrosidade infame, porque pode-se dizer e digo que foi o signal para começar a batida. Foi a mesma coisa do que se faz n’uma batida às feras: sabe-se que tem de passar por caminho certo: quando entra n’esse caminho dá-se o signal e começa o fogo! Infames! Eu estava olhando para o lado da estatua de D. José e vi um homem de barba preta , com um grande “gabão”. Vi esse homem abrir a capa e tirar uma carabina. Eu estava tão longe de pensar n’um horror d’estes que me disse para mim mesmo, sabendo o estado exaltação em que isto tudo estava “que má brincadeira”. O homem sahiu do passeio e veio se pôr atraz da carruagem e começou a fazer fogo.

** Respeito pela grafia da época. Sublinhados do Jornal, escrita a negro pela matéria invocada.

*** Amanhã publicaremos a Carta de João Franco.

Director
Nota especial do Director: A presente matéria e a posição política do Director, conhecida, não vincula o Jornal, matéria contida no Estatuto. Reconhecidamente aberto, de Linha Constitucional, o Jornal de Oleiros é receptivo a todas as ideias construtivas para o país e para a população, como fácilmente é evidenciado nas suas páginas.
 
Próximos trabalhos:
. 29 de Janeiro, Carta de João Franco;
. 30 de Janeiro, Carta de Monárquicos ao Presidente da República, Dr. Mário Soares a invocar a inconstitucionalidade do Artº 290 da Constituição;
. 31 de Janeiro, contribuições várias sobre a matéria;
. 1 de fevereiro, Director do Jornal de Oleiros e Monárquicos estarão no Terreiro do Paço em Lisboa prestando homenagem a S.A.R. Dom Carlos e ao Príncipe  Dom Luis Filipe.
 
 
 

 

 

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
Esta entrada foi publicada em Comunidades, Destaques, Forças Armadas, História, Memórias com as tags . ligação permanente.

2 Respostas a Antevisão do Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908, Dom Manuel fututo Rei estranhou a agitação

  1. Joaquim Vitorino diz:

    Caro Director; Portugal tem que refletir, o passado acima referido; e fazer bem as contas: o que o país ganhou com o Regicídio, porquanto já tinhamos um sistema parlamentar, ou que benefícios tivemos, com as sucessivas Repúblicas, e mais recentemente, com esta democracia, que só uma minoria restrita, tiram proveito dela. À excepção de Espanha, e um pouco a Belgica, que mesmo enfrentando a crise, vivem melhor que nós; todos os Reinos da Europa, têm um nível de vida muito superior, ao dos portugueses.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *