“A Voz da Lusa Atenas”, por Carlos Fernandes

“ A VOZ DA LUSA ATENAS”

A canção de Coimbra é um género musical cujas origens se encontram na cultura urbana da própria cidade. Com características populares e académicas insere-se na Música Tradicional da cidade e pelas suas influências locais, constitui-se na Serenata o ponto mais alto e relevante da sua expressão artística e genuína.

Desde sempre marcada por excelentes intérpretes vocais e exímios instrumentalistas da guitarra Coimbrã, a canção de Coimbra tem as suas origens de base deixada no final do século XIX por Augusto Hilário, sem dúvida o seu pioneiro, era entoada a saudade de deixar Coimbra, os encontros, desencontros e sofrimentos de amor.

Mas é na primeira década do século XX, que se assiste a um ponto de viragem no que diz respeito à interpretação e à poesia com Edmundo de Bettencourt e António Menano, sendo este uns dos mais féis representantes do legado anterior. Na parte instrumental não poderemos deixar de referir um dos expoentes máximos da primeira geração de ouro e um dos mais célebres guitarristas de todos os tempos, Artur Paredes.

José  Afonso, Luís Goes, são alguns dos nomes de destaque, desta segunda geração passando a Canção Coimbrã a assumir também ela um papel  relevante de contestação para como regime que vigorava à época, nomes como Adriano Correia de Oliveira e António Bernardino aparecem também na chamada cantiga de intervenção. Nuno Guimarães, José Manuel dos Santos, Mário Soares da Veiga e tantos outros, renovam a linha mais tradicional e conservadora da Canção Coimbrã. Não nos poderemos esquecer, de um dos maiores mestres da guitarra Carlos Paredes, também ele  um dos ilustres representantes da Canção Coimbrã.

Após o ressurgimento da Canção Coimbrã (1978/1980), as referências deixam de ser individuais, como até então acontecia, para passarem a ser em torno do coletivo.

Se houve voz que em muito ultrapassou as margens do Mondego, essa tem um nome Luiz Fernando de Sousa Pires de Góes, nascido na cidade de Coimbra em 1933, cujas origens familiares em muito contribuíram para a sua formação artística.

De facto, o cantor cedo se iniciou, (aos catorzes anos era considerado o “menino prodígio” com honras de ser convidado e acompanhado por Artur Paredes, Afonso de Sousa e mesmo Francisco Menano), por influência do tio paterno Armando Góes, contemporâneo de  Edmundo Bettencourt, António Menano, Lucas Junot, Paradela de Oliveira, Almeida d’Eça e Artur Paredes.

Luiz Góes viria a revelar-se num dos mais brilhantes cantores que passaram por Coimbra, mas cujo fogo, alimentado que fosse para fora do ambiente tão propício à inspiração e à difusão, como o do Mondego fez dele a maior voz da Lusa Atenas.

De facto, Góes é autor de 25 fados e de 18 baladas, de que se destacam Fado da Despedida, Toada Beira, Balada da Distância, Canção do Regresso, Homem Só, meu Irmão, Romagem à Lapa, É Preciso Acreditar e tantos outros. Fado, toada, balada, canção.

Luiz Góes, atravessou uniformemente os diferentes géneros da canção de Coimbra com um fio condutor: a sua voz inconfundível de barítono ao serviço de um conjunto de temas criteriosamente escolhidos ou criados.

Quis o destino que nos deixasse, esta semana, mas a imortalidade da sua voz permanecerá viva  nas nossas vidas, nesta Coimbra que nos enche de luz. Até sempre meu irmão!!

Bem hajam

Carlos Fernandes

 

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
Esta entrada foi publicada em Castelo Branco, Destaques, História, Memórias. ligação permanente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *