A experiência da nossa essência relacional, moral e criativa

Dr. Fernando Caldeira da Silva

A EXPERIÊNCIA DA NOSSA ESSÊNCIA RELACIONAL, MORAL E CRIATIVA

Por Fernando Caldeira da Silva

Neste artigo trago ao debate a extraordinária experiência da nossa essência relacional, moral e criativa. Como o título indica abordaremos esses três temas interligados na nossa existência humana por considerar que são extremamente relevantes neste tempo de dificuldades que afetam muitos portugueses.  

Em primeiro lugar, não se pode viver a vida no isolamento; ou seja, ilustrando, a vida vive-se em coro e não a solo. No entanto, a tendência estranha no mundo é julgar-se que somos egos existentes envoltos em pele que revestimos com algum tipo de roupas através das quais pretendemos que nos identifiquem. Mas a verdade é que a nossa existência particular que acontece dentro e que está limitada pelos nossos corpos físicos sobrevive devido às nossas ligações com quem e com o quê nos relacionamos. Presenças que convivem dentro de nós cuja influência ultrapassa o perímetro dos nossos corpos para as profundezas do nosso ser interior. Estamos indissociavelmente interconectados com quem vive em nós e nós neles. É desta forma que muitos se tornam um e um aumenta o todo. Daqui a importância da nossa natureza relacional; ou seja, que do mais profundo do nosso ser influenciam e somos influenciados nos pontos de encontro com quem nos rodeia.

Note-se – porém – que este processo pode ter efeitos benéficos ou maléficos, não apenas quando agimos ou falamos intencionalmente mas mesmo pelo tipo de manifestação da nossa presença quando andamos, permanecemos em pé ou nos sentamos junto com outras pessoas. Devemos assim questionar que tipo de mensagem que enviamos a quem nos cerca. Ou seja; As mensagens que emitimos têm caráter atrativo, agradável e enriquecedor ou perturbam e ameaçam? A nossa presença adiciona valor e charme ao mundo que influenciamos ou reduzem esse valor e injetam o feio e o horrível. Por outro lado, o ambiente social e natural com o qual interagimos aumenta o nosso valor ou redu-lo? Como encontramos satisfação quando estamos rodeados por um mundo que nos subtrai as aspirações à felicidade?

Diga-se – em segundo lugar – que a experiência relacional é a realidade primária a que o indivíduo se liga porque liberta e não restringe. O cérebro humano está devidamente equipado com todos os “sensores” e “fios” necessários à apreensão das respostas sensoriais percetíveis no rosto dos nossos interlocutores. Ou seja, fomos criados para nos relacionarmos. Mas esta não é apenas verdade quanto à relação entre os seres humanos. É também verdade quanto à nossa relação com o mundo que nos cerca e ainda com o cosmos todo como universo interconectado. Isto nega a validade da autossuficiência dos seres humanos enquanto indivíduos. Decididamente, só somos pessoas quando relacionados com e através dos outros seres humanos e com a natureza que nos rodeia e sustêm. Vida é assim um conjunto de elementos muito superiores ao conceito de que o ser humano é um ego envolto na sua pele. Consequentemente, a consciência e a felicidade humana está intrinsecamente ligada à essência relacional do ser humano e portanto depende do bem-estar geral para experimentar verdadeira felicidade o que requer moralidade.

A genuína moralidade resulta da existência humana interconectada com a diversidade de elementos relacionais. É porque existe imensa variedade e diferença à nossa volta que somos levados a escolher dentro de um leque imenso de opções que apelam ou não à nossa consciência, ao nosso sentido ético e à nossa moralidade. Num cosmos e num mundo profundamente interligado jamais poderá subsistir o individualismo egocêntrico. A verdade é que não somos individualmente soberanos nem individualmente sujeitos mas ambas as condições estão interligadas e ativadas nas nossas vidas. Precisamos do mundo e o mundo precisa de nós; o mundo forma-nos e sustêm-nos a nós e nós criamo-lo e mantemo-lo a ele. E esse processo é relacional e simultaneamente norteado por princípios morais.

Em terceiro lugar, portanto, a capacidade de criarmos e de mantermos o mundo vivo através da outra faceta da experiência essencial humana que é a criatividade. Tanto os cristãos, como os judeus ou os muçulmanos acreditam que os seres humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus; tendo por isso a capacidade de receber influência transformadora e de influenciar transformação através das suas vidas. É preciso assim pensarmos também neste outro aspeto da experiência humana que é a capacidade de criar; inerente a todos os seres humanos, apesar de nem sempre com a mesma intensidade e alcance nem necessariamente nas mesmas esferas. Mas todos nós à nossa maneira particular temos a habilidade de inventar e de criar, contribuindo com coisas novas para o mundo em que vivemos. Vivemos constantemente a experimentar criatividade. Apesar de nos relacionarmos constantemente para o nosso bem-estar pessoal também nos expressamos criativamente contribuindo algo novo e único para esse mundo e universo de relações intensas. O poder de criarmos algo genuinamente novo é intrinsecamente parte da nossa natureza humana.

Assim sendo, urge abraçarmos essa contribuição dos outros e ao mesmo tempo tornarmo-nos cocriadores dum mundo mais fresco e melhor também recriado por nós. Um futuro melhor deve ser a aspiração de cada um de nós mas também precisamos de nos envolvermos na tarefa de o recriar. Precisamos por isso de nos apercebermos das nossas capacidades criativas latentes no mais profundo da nossa natureza tornando-nos conscientes delas como seres pensantes. O nosso cérebro deve ser ativado para produzir respostas criativas aos problemas que enfrentamos. A história confirma que sempre foi possível aos seres humanos e às sociedades se reinventarem para todos construírem um mundo melhor para si e para os seus filhos. Ao passado tira-se o chapéu; ao presente e ao futuro arregaçam-se as mangas. 

* Correspondente do nosso Jornal na África Austral.                     

                                

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