” O Moita Calado “, por Carlos Fernandes

“O Moita Calado”

Carlos Fernandes

Durante a II Guerra Mundial, Portugal foi atravessado pela chamada “febre do volfrâmio”, mais precisamente as regiões da beira interior. O volfrâmio esteve no centro da economia de guerra. Ao abrigo da neutralidade assumida por Portugal, tanto o Eixo como os Aliados procuraram garantir a concessão de minas que fornecessem as forças militares a que pertenciam.

Devido à geopolítica da guerra foram os Alemães que mais precisaram do minério da nossa Beira Interior, por outro lado os Ingleses interessaram-se para retirar espaço de manobra ao inimigo. Estudos e investigações recentes revelaram que grande parte desses pagamentos feitos pelos Alemães, foram através do “ouro nazi” .Convém relembrar  que esta designação de “ouro nazi”, engloba o ouro saqueado aos judeus , enviados para os campos de concentração ou emigrados, e retirado dos cofres dos países ocupados . Foi esse “ouro nazi” que serviu para saldar com Portugal as contas de volfrâmio e outros produtos que lhes eram necessários (resinas, madeiras etc).

Sendo o distrito de Castelo Branco um dos focos principais da extracção de volfrâmio. A crescente procura internacional do minério trouxe grande azáfama a esta região, principalmente depois de ganhar fama de ser a mais rica. A anormal densidade populacional, a maneira como cada um procurou a fortuna o “el dourado”, os problemas que se depararam às autoridades centrais e locais, ficaram registados em documentos oficiais e privados, em obras literárias e como não poderia deixar de ser na memória colectiva de algumas povoações , No Fundão em Moncorvo , Montalegre e em muitas outras localidades, o tempo do volfrâmio, deixou, memórias ,mazelas e algumas lendas .

A febre foi mais intensa entre os anos de 1941e 1942, não só favorecida pelo desenrolar da guerra mas também, por uma legislação menos restritiva. Para melhor entenderem este “el dourado”, convém referir, que os preços do quilograma de minério dispararam para os 5oo escudos ou mais, à aquele tempo sem dúvida uma fortuna , Nesse tempo , ao fim de um dia de trabalho de a sol a sol , um assalariado rural dificilmente receberia mais que 40 escudos .

Os concessionários que exploravam as minas mais importantes eram, tal como hoje quase sempre sociedades com capitais e administradores de diferentes nacionalidades, contudo logo que começou a II Guerra Mundial a miragem de bons negócios o lucro fácil, levou ao aparecimento de inúmeras sociedades de média e pequena dimensão. Em muitos casos, a reunião do capital necessário ao investimento junto membros das elites locais (os maiores proprietários, médicos, advogados, farmacêuticos ..) em sociedades de curta duração, e na maioria dos casos nem sem sempre bem sucedidas.,

A par destas sociedades à primeira vista dentro da legalidade surgiram outras, fundadas apenas na palavra de honra. Uma população maioritariamente analfabeta confiava mais em contratos orais do que numa escritura que não conseguia perceber, Era frequente os homens que chegavam às terras do “el dourado”, organizarem-se em sociedades civis , três ou quatro elementos revolviam uma encosta e o lucro da venda do minério que encontrassem era distribuído em função do capital que cada um tinha contribuído .

Eram estes homens que faziam parte da enorme multidão dos trabalhadores ao Kilo ou pilhas como ficaram conhecidos .O que a memória dos habitantes das serras do volfrâmio registou com mais precisão foi estes movimentos de chegadas e partidas destes homens sem destino certo, mas com a inabalável fé de ficarem ricos. Grande parte desta gente seriam assalariados rurais desocupados ou pequenos agricultores que vinham em grupo de um lugar ou freguesia , dormiam onde calhava e comiam do que traziam ou do que encontravam, chegado o inverno regressavam às suas terras de origem quase sempre com as mãos cheias de nada, mas mesmo assim os ricos lavradores queixavam-se a corrida ao “el dourado” fazia rarear a mão de obra e subir os salários, eis que o governo dá-lhes razão e estipula várias medidas para disponibilizar trabalhadores rurais quando as fainas agrícolas o exigissem . Ora esta restrição contribui e de que maneira para o desenvolvimento do contrabando da precariedade para o aparecimento dos ladrões de volfrâmio, que similitude com os de cobre no nosso tempo.

Com uma jurisdição mais complicada, com o desenvolvimento do teatro de guerra a partir de 1942 , para muitos dos que sonharam com o “el dourado”as possibilidades de riqueza tendiam a dissipar-se. Todavia na ânsia de maior fortuna os mais bem sucedidos no negócio como Moita Calado, investiram em minério todo o lucro que obtinham e guardavam-no à espera que os preços subissem . Com o tabelamento veio a falência o volfrâmio teria de ser vendido a preços inferiores ao de compra, O mercado negro não parou , mas os comissários dos beligerantes tinham menos margem para fazerem compras – A miséria alastrou, segundo noticias da imprensa local  dão conta da abertura da sopa dos pobres em várias zonas mineiras o “el dourado” estava moribundo , o nosso amigo Moita Calado completamente falido.

Mas o golpe final concretizou-se em Junho 1944 uma nota oficiosa nos principais jornais. Não deixava duvidas : declarava a proibição da exportação de volfrâmio para todos os destinos .

O “el dourado “ português tinha acabado e com ele os Moitas Calados da nossa terra

Bem hajam

Carlos Fernandes

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
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Uma Resposta a ” O Moita Calado “, por Carlos Fernandes

  1. Fernando Cabaco diz:

    Excelente artigo, que, transpondo aos tempos actuais, presumo que muitos dos”” Moitas Calados”” devido à sua ganância e prepotência seguirão o mesmo caminho.

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