Tragédia Horrível, por Fernando Caldeira da Silva

TRAGÉDIA HORRÍVEL

Estremeceu ao ler a lápide da jovem mulher recentemente enterrada. Lia-a através das grades de ferro do cemitério enquanto aguardava que o semáforo voltasse ao verde neste país mais a sul de África. Reparou nas oito covas acabadas de abrir pela retroescavadora ao lado de outras tantas já ocupadas por cadáveres de gente que pouco viveu deixando os filhos aos cuidados dos avós. Claro que não morreram de SIDA nem do HIV mas os seus sistemas imunológicos deficientes permitiram que outras doenças os matassem. “LORRAIN, YOUR TRAGIC DEATH LEFT US ALL DEVASTED”.

Carlos Portela – nome convenientemene fictício – sentia arrepios por essas mortes constantes devido ao flagelo da SIDA e a idéia de vir a ser contagiado apertava-lhe o coração. Os empregados olharam para ele de soslaio e decidiram deixá-lo entregue aos seus sentimentos penosos enquanto ía abrindo as portas do negócio naquela manhã sombria e tristonha. Cada um seguiu para o seu posto de trabalho uns batendo as chapas outros preparando a pintura dos automóveis danificados nos acidentes recentemente.

De repente entraram meliantes sorrateiramente no escritório sem ninguém perceber. Fecharam a porta atrás de si e avançaram para Carlos ameaçando-o com uma seringa cheia de sangue. “O cofre, o cofre, abre já o cofre” dizia-lhe um num inglês mal falado. “Este sangue está contaminado com o virus HIV, e vais sentir hoje o que o nosso povo sofre, seu branco dum raio”. Enquanto isso encostava a agulha ao pescoço de Carlos que aterrorizado procurava encontrar as chaves do cofre com rapidez. Suores frios escorriam-lhe no rosto e as chaves caíram-lhe por entre as frestas do soalho. Enraivecido o meliante espetou-lhe a agulha, injetando-lhe parte do sangue, que sentia correr-lhe para dentro do corpo. Ainda o espancaram, roubaram-no, ameaçaram, e partiram sem demoras. Carlos pediu ao filho que o levasse imediatamente ao hospital e estava confirmado, “O senhor está infetado com o terrível virus HIV”.

A partir desse dia Carlos está a morrer aos poucos. O cancro espalhou-se pelo corpo; primeiro no cólon, depois no cérebro, depois na coluna vertebral, depois nos pulmões… Até que os médicos o enviaram para casa para morrer. Ainda não morreu; luta com vontade de viver, pedindo a todos que orem a Deus por ele. É um quadro horrível, horrível… Mas infelizmente verdadeiro e que revela meandros da treva.

Por Fernando Caldeira da Silva

Oleirense, Correspondente na África do Sul

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