“Depois do adeus a liberdade”, por Carlos Fernandes

“Depois do adeus a liberdade”

Foram horas, foram dias e noites, foram anos, em que o ar pestilento, o bolor ditaram as suas leis, Abril chegou e com ele, os acordes e a esperança renovada, um cheirinho a liberdade “Depois do adeus”.

Para o célebre colunista do jornal Times de Londres, Bernard Levin, o facto que mais o impressionou no golpe militar em Portugal a 25 de Abril de 1974 foi a forma como no espaço de poucas horas, um regime que durara meio século e completamente adaptado a um país rural e católico, tenha desaparecido como se nunca tivesse existido. Mas talvez a maior surpresa tenha sido o facto de Portugal ter saído da ditadura por um caminho diferente do que usaram a Grécia no mesmo ano de 1974 ou até memo a Espanha entre 1976 e 1977, é bem verdade que eram três ditaduras extremamente conservadoras, em sociedades que na época de sessenta se tentaram industrializar e urbanizar através da integração na economia europeia, e cujos equilíbrios também foram seriamente abalados pelo choque petrolífero (1973-1974).

Carlos Fernandes

Mas em Portugal houve uma revolução, em vez de uma transição negociada como na Grécia e na Espanha, tudo isto num ambiente internacional marcado pelo suposto declínio de um ocidente em constante mudança e afligido pela inflação e pela retracção do poder americano, a consolidação da democracia em Portugal passou por dois anos atribulados, dois anos de agitação que dividiram o pais, trouxeram milhares de pessoas às ruas e consumiram dois presidentes da Republica e seis governos provisórios.

Houve dois grandes marcos de transformação na História contemporânea portuguesa, um foi a Revolução de 1834 que pôs fim ao antigo regime, eliminando os velhos códigos e linguagens que tinham regulado o exercício do poder, e as relações entre as pessoas e os grupos à face desse poder, o estado e a politica contemporâneos ficaram assim definidos nas suas estruturas básicas.Com a mudança económica, social e de mentalidades da segunda metade do século XX, essencialmente depois da segunda guerra mundial, o pais renasceu com uma sociedade nova muito diferente do que tinha sido até aí, essa transformação, acelerou-se a partir de 1960-1973 mais tarde que nos outros países, em duas três décadas, fez-se em Portugal o caminho que outros percorreram em cinco ou seis décadas. A principal dimensão desta grande mudança consistiu no terminar de uma sociedade de comunidades rurais, em que a maioria da população vivia ocupada na agricultura e dispersa em vilas, aldeias e casais na província, e na emergência de uma sociedade urbana, situada numa cidade litoral que ia de Setúbal a Braga, e tinha como pólos principais as área metropolitanas de Lisboa e Porto, ligada pela auto-estrada nº 1 (cuja construção foi iniciada em 1961 e concluída em 1992). Fora deste panorama destacava-se a costa algarvia. Em 2001 no conjunto das duas grandes áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto viviam cerca de 4,4 milhões de pessoas, o equivalente a 44% da população residente. Os portugueses habitavam num mundo novo, um em cada 2 residentes dos distritos de Lisboa e Setúbal nascera noutra área do, pais.

  Nesta mudança, Portugal foi um dos poucos países do ocidente em que nunca a industria teve o primeiro lugar como empregador de mão de obra, não se chegando assim, a afirmar o tipo de cultura operária urbana do norte da Europa .Mas a nova distribuição populacional reflectiu não apenas a migração interna propiciada pela mudança estrutural da economia, mas também o êxodo para o resto da Europa, especialmente para França e a Alemanha entre 1966 e 1972. Não foi uma emigração de pequenos proprietários, como a que se dirigiu para o Brasil no século XIX, mas de trabalhadores pouco qualificados. Terão partido 1,5 milhões entre 1960 e 1974. Em 1982, havia em França, segundo recenseamento oficial, 764 864 imigrantes portugueses legais, Paris depois de Lisboa e Porto era a cidade europeia onde viviam mais portugueses.

No principio dos anos setenta o pais mudara muito, mas a questão politica principal era a mesma de 1960 : a guerra em África. E alguns dos protagonistas da discussão também eram os mesmos : os Generais Costa Gomes, Kaúlza de Arriaga e António de Spínola . E m 1970, pertenciam-lhes os comandos -chefes de África: Costa Gomes estava em Angola, Kaúlza em Moçambique, e Spínola na Guiné. Por decisão de Marcelo Caetano, tinham poderes que nenhum comandante -chefe tivera antes. Foi com os generais que tudo começou.

A guerra proporcionara à oficialidade promoções rápidas e melhorias de vencimento. Mas a inflação devorara os aumentos : em 1973 o poder de compra dos oficiais era 45% do de 1960.

Pior em 1961, tinha havido 559 concorrentes para 265 vagas na Academia Militar, em 1972, houve 155 para 495. Como resultado, segundo Secretariado Geral da Defesa Nacional, em Março de 1973 existiam no quadro permanente, apenas cerca de metade dos oficiais necessários, sujeitos a repetidas missões que os tinham colocado no limiar da total exaustão psicológica. Mas foi a tentativa governamental de resolver o problema que deu finalmente margem para manobrar os generais dissidentes. A 13 de Julho de 1973, um decreto proporcionou aos oficiais milicianos do exército acesso ao quadro permanente. Os capitães e majores da Academia Militar indignaram-se, fizeram-se reuniões assinaram protestos, tal numero tornou impraticável qualquer punição o governo volta atrás e suspende os decretos, mas a sensação de força que assim proporcionou aos contestatários animou-os a persistir, estavam lançadas as sementes que em Abril iriam florir

O 25 Abril chegou, planeado como uma pura operação militar, sem ramificações civis ou diplomáticas, pelo major Otelo Saraiva de Carvalho que no movimento dos capitães era um dos elementos da ligação com o general António Spínola. Em vez da concentração defensiva dos sublevados preferiu uma acção ofensiva em Lisboa com a ocupação da rádio televisão, Quartel general, aeroporto e ministérios do terreiro do Paço. No norte, tomar-se-ia o Quartel -general da região militar do Porto. Contudo a acção mais importante teria lugar em Bissau, com o afastamento e o inicio imediato de conversações com o PAIGC . Se o golpe falhasse em Lisboa, esperava-se que bastasse para fazer cair o governo. Quanto a António de Spínola e Costa Gomes, não iriam à frente, como Gomes da Costa em 1926. Optou-se por um Movimento das Forças Armadas (FMA), expressão inventada por António de Spínola, anónimo e institucional, com os generais a serem chamados apenas no fim como De Gaulle em França em 1958.

Após esta viagem pela nossa história, constatamos que ontem como hoje, ou melhor desde sempre o nosso povo nunca foi o actor principal mas sim mero figurante da história, o povo juntou-se à revolução militar não a fez, terá sido feita para ele? Cada  um tirará as suas conclusões.

O povo ah! o povo, sempre ligado à sua vidinha, sempre a olhar para o seu umbigo, jamais pensa no colectivo ,mas tenhamos a esperança de que “ depois do adeus a liberdade” prevaleça  e não “adeus liberdade”

Que se cumpra : Grândola Vila Morena

O povo é quem mais ordena !  Pois a história não acabou

BEM HAJAM

CARLOS FERNANDES

* Nota do Director

O presente artigo é também publicado na edição em papel do Jornal Povo de Portugal , também com edições online em www.jornalpovodeportugal.eu dado o acôrdo de cooperação entre os dois jornais e, ainda, pelo facto de Carlos Fernandes ser um Colunista especializado de ambos os jornais.

 

 

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