CONVERSA EDIFICANTE – Fernando Caldeira da Silva

CONVERSA EDIFICANTE

Dr. Fernando Caldeira da Silva

COM O FILÓSOFO CATÓLICO ROMANO

Prof. Dr. A. ANDRADE

Em março passado tive o privilégio de entrevistar o Professor Doutor A. Andrade. Como católico romano, este professor de filosofia entusiasmou-me por várias razões: (1ª) Muitíssimo amável e pronto a receber-me; (2ª) A conversa foi extremamente aliciante porque viva e vitalmente informada; (3ª) Porque revelou a capacidade extraordinária de superar os limites mentais e culturais da sua denominação cristã para entabular conversa comigo, que comungo de fé semelhante, mas noutra instituição cristã. A seguinte entrevista é apenas um pequeníssimo excerto que decerto interessará aos leitores.

  1. 1.      O Concílio de Trento teve um efeito extraordinário na sociedade portuguesa?

– Teve. O Concílio de Trento que naturalmente tratou da questão do sisma, da Contra Reforma, pronto, não há dúvida nenhuma que ficou marcado no imaginário dos católicos, não é? E sendo Portugal um país católico… Mas que é um país católico instalado. Praticantes se calhar há muito poucos, são menos gente. Mas realmente criou-se aquela idéia… Isto faz-me lembrar um pouco o que se passou com o Humberto Delgado; “eh pá, vem aí o comunismo e tal”. E as pessoas começaram a ter medo. Eu lembro-me disso quando era miúdo. E em relação ao protestantismo eu sempre me lembro que era semelhante. Isto é; “Oh, aquele indivíduo é protestante”. Como se fosse alguém particularmente perigoso. Quer dizer; “Este indivíduo comunga dumas idéias esquisitas, é protestante e tal”. E portanto o desconhecimento dos católicos em relação às outras confissões cristãs estabelecidas em Portugal é um desconhecimento de alguma maneira alimentado. Quer dizer, aquilo que se desconhece é uma coisa que se teme. A gente não ama aquilo que não conhece.

Realmente – digamos – a estranheza cultural é o elemento fundamental para a existência do medo e para a rejeição social dos cristãos não católico romanos. Acontece em relação a grupos etnograficamente específicos como por exemplo os ciganos, et cetera, et cetera, et cetera. E portanto eu penso que é fundamentalmente por causa do desconhecimento que existe tanta estranheza em relação a esses outros cristãos na sociedade portuguesa.

Mas, esse desconhecimento é um desconecimento fomentado institucionalmente a partir do Concílio de Trento – como disse e muito bem – pela própria hierarquia católica. Isso me parece claro. E sobretudo nos bancos da catequese. Naquela idéia do apóstata. Do indivíduo que realmente…            

  1. 2.       Do herege?

– Do herege e tal. Quando na verdade apenas, e em boa verdade – e isso não é dito, não é dito, não é? Não é dito – porque se é Contra Reforma é porque alguém quiz reformar, não é? E isso faz-me lembrar o que aconteceu no seio da Ordem Carmelitana, por exemplo. Quer dizer; havia a Ordem, não é verdade, no Monte Carmelo, e Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz fizeram a reforma. E a verdade é que atualmente … a Igreja, [ou seja], no seio da Igreja Católica há os padres carmelitas chamados calçados que são os da tradição, e há os da reforma que são os descalços, não é?   

  1. 3.       A Reforma, portanto, de alguma forma deveria ter acontecido? Não é? Era necessária?

– Era inevitável porque com as práticas de simonia que havia, com o amolecimento duma cristandade instalada, digamos, à sombra – digamos assim – dos benefícios hierárquicos [e estatais], do tráfico das indulgências, que são as tais práticas…

  1. 4.       E das influências?

– E das influências. Tudo isso de facto… Portanto, quer dizer, o que me entristece a mim de alguma maneira é que se não tenha visto na Reforma, e não tenha ficado a Reforma como um movimento – digamos assim – endógene de autoregeneração da Igreja no seu todo e que isso tenha dado em separação. Porque como eu estou a dizer, quer dizer, o exemplo que eu estou a dar dos Carmelitas, são ambos duas sensibilidades mas são amigos, fazem parte da mesma Igreja e tal. E era isto que no fundo era desejável. Desejável. E é claro que, porque é que isso não aconteceu? Não aconteceu, se me permite, se calhar… 

  1. 5.       Tudo bem.

– Não aconteceu fundamentalmente por uma razão. É porque uma igreja não se constitui com um objetivo vertical mas constitui-se com um objetivo horizontal. A igreja como igreja que se forma, ela forma-se para se perpetuar à sombra dum certo dogma. Isto é; a institucionalidade supera a vivencialidade. A relação com o Altíssimo, com Deus, da relação vertical, que é a tal dimensão da consciência que eu falava ao princípio, é de alguma maneira secundarizada em favor do arregimentar das pessoas, daquilo que se chama o proselitismo. E portanto, depois as igreja começam a disputar entre si predominância e importância. Que dizer? Isto faz-me lembrar dos clubes de futebol, [disputam para saber] quem é que tem mais sócios. Não é por aí que…

A religião, o religare, faz-se debaixo para cima no sentido vertical, no sentido da divindade, da nossa divinização. E isso cada vez deve ser visto como o essencial e não propriamente a ver quem é que tem mais. Mais poder, mais predomínio, mais influência, mais ta, ta, ta. E portanto, quando a consciência evoluir eu estou convencido que a igreja no seu todo – a igreja que são os evangélicos, portanto, a reforma, os calvinistas, os protestantes propriamente ditos, os presbiterianos, os metodistas, a Assembleia de Deus, os pentecostais, os coptas, enfim esses já estão, a igreja oriental da… Tudo isso, tudo isso é a mesma Igreja.   

  1. 6.       Aqueles que professam Cristo?

– Cristo. A centralidade crística. A centralidade crística.

F. C. da Silva

Teólogo Historiador

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
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