Turismo Sustentável, Por Fernando Carvalho

Turismo Sustentável – evolução do conceito

Dr Fernando Carvalho

Nos últimos artigos publicados neste jornal tem sido abordado o tema do Turismo, na sua vertente “sustentável”, cujo conceito será pertinente desenvolver para melhor compreensão e enquadramento.

Assim, fazendo uma breve perspectiva histórica, é possível identificar a seguinte evolução, nomeadamente na segunda metade do século passado:

– A primeira fase coincidiu com a crise económica da década de setenta, que colocou o Ocidente mais desenvolvido perante a realidade da escassez dos recursos, das desigualdades sociais, dos desequilíbrios territoriais na distribuição da riqueza e do perigo da dependência externa.

Podemos identificar, como referência histórica, a realização da primeira Cimeira da Terra, no âmbito da ONU, em Estocolmo/1972.

– No início da década de oitenta, a ONU retomou o debate sobre o tema. Nesse sentido, a primeira-ministra da Noruega, Harlem Brundtland foi mandatada para chefiar a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, que elaborou um documento chamado “Nosso Futuro Comum”, também conhecido como “Relatório Brundtland” e publicado em 1987.

Este trabalho define, sucintamente, o desenvolvimento sustentável como “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades actuais, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir as suas próprias necessidades”.

– Na década de noventa, com base nas mesmas preocupações, surge, pela primeira vez, o conceito de “Turismo Sustentável” na declaração emanada pela “Conferência do Rio – Agenda XXI”, realizada pela ONU em 1992 no Rio de Janeiro. O mesmo conceito viria a ser adoptado pela União Europeia, através das políticas de integração do ambiente nos sectores chave da economia, decorrentes do 5º Programa de Ambiente “Em Direcção a um Desenvolvimento Sustentável”.

Estas fases são facilmente identificadas nos países mais desenvolvidos do Ocidente, nomeadamente na Europa do Norte e Central. Nos países europeus do Sul, caracterizados por uma evolução económica e social mais lenta e procurados por um tipo de turismo de massas (“Sol e Praia”), o conceito de “sustentável” só começa a ganhar alguma evidência nos últimos anos, após vários erros cometidos nos locais de acolhimento (excesso de oferta e descaracterização dos destinos), começando a afirmar-se destinos alternativos, com uma oferta diferenciada.

Com efeito, só durante a última década começaram a surgir no nosso país estratégias regionais planeadas em que o turismo “sustentável” assume um papel importante na óptica do desenvolvimento local. Trata-se de uma actividade que faz uso de recursos locais, pouco aproveitados e com fracas potencialidades económicas, possibilitando uma exploração mais eficiente desses recursos. O seu efeito multiplicador na economia promove a dinamização e modernização de outros sectores produtivos, tem reflexos na cultura, na gastronomia e no artesanato, e proporciona as condições necessárias à criação de infra-estruturas e equipamentos.

Através desta breve perspectiva histórica é possível concluir que se trata de uma tendência consistente, já consolidada em países mais desenvolvidos e com bons exemplos em alguns locais do nosso país.

Turismo Sustentável e o Concelho

Tal como na generalidade das regiões do interior do nosso país, é urgente inverter a tendência que se tem vindo a verificar nas últimas décadas, relativamente ao decréscimo da população residente, com todas as consequências advenientes. E, no actual contexto económico, o turismo sustentável pode representar uma excelente oportunidade para o concelho de Oleiros. Trata-se de uma região com potencial considerável, que não sofreu os excessos do “crescimento” e manteve a grande maioria das suas características genuínas.  

Contudo, como tem sido referido, esta vertente do turismo está correlacionada com diversas actividades locais, a montante e a jusante, interdependentes entre si, que são imprescindíveis no processo.

O sector primário da economia, que inclui actividades produtivas como a agricultura, a pecuária e a pesca, é determinante para que se possa falar em sustentabilidade. Terá, por isso, que se organizar no sentido de dar resposta às necessidades de consumo locais. De facto, neste modelo sustentável, não parece razoável “importar” o que é possível produzir no concelho, dispondo-se das condições necessárias para esse efeito.

Aliás, “produzir local e consumir local” é um dos princípios da sustentabilidade, defendido por todas as organizações que se preocupam com o tema. Para além das vantagens ecológicas e económicas óbvias, é a única forma de garantir a genuinidade dos produtos gastronómicos que dão hoje notoriedade ao concelho. E a genuinidade, em termos turísticos, é um factor crítico de sucesso!   

É verdade que isso implica uma organização diferente da exploração agrícola, nomeadamente porque há aspectos fiscais e de segurança alimentar a ter conta. São, contudo, ultrapassáveis e economicamente viáveis, desde que garantam a qualidade necessária e a quantidade que o mercado é capaz de absorver. A hotelaria, a restauração, o comércio, as instituições de saúde, assistenciais e os estabelecimentos de ensino representam já uma procura relevante.

A recente realização da “Mostra de Produtos Locais”, incluída na 5ª Mostra do Medronho e da Castanha promovida pela Câmara Municipal, comprova a existência de uma estratégia de desenvolvimento integrado do concelho. Os produtos apresentados, de excelente qualidade, genuínos e inovadores, justificam a aposta e comprovam que é possível seguir por esse caminho.

São, contudo, ainda insuficientes para que Oleiros se possa afirmar como destino turístico sustentável. Mas representam já uma boa amostra, são um incentivo e um convite aos empreendedores (que sempre surgem nas épocas de crise como a que vivemos…).

Fernando Carvalho

Novembro de 2011

Nota do Director: A importância da peça aqui publicada, o que revela sobre a matéria e a perspectiva futura que vislumbra, determina a publicação deste importante contributo tanto nesta edição como na edição em papel. Sentimos com esta atitude, estar verdadeiramente ao serviço de Oleiros e não só, mas especialmente.

Um abraço ao Autor que nos honra com a Sua sapiência.

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
Esta entrada foi publicada em Destaques, Economia com as tags . ligação permanente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *