VENCER O INIMIGO. HUMILHÁ-LO NUNCA! – António Moreira

Dr. António Moreira

Está por fazer um balanço sereno da actuação das nossas Forças Armadas nos três teatros de guerra a que foram chamadas entre 1961/1974, isto é, em Angola, na Guiné e em Moçambique.

Todos os relatos que se têm produzido sobre esse tema, porque baseados em experiências pessoais, reflectem tendencialmente a sensibilidade de quem os protagonizou.

A guerra que fomos obrigados a travar contra os nossos Irmãos Africanos marcou-nos, a todos quantos a vivemos, para o resto das nossas vidas.

Cada um terá a sua versão dos factos e fará dos mesmos o seu julgamento pessoal.

Como tudo na vida, essa experiência tem um lado mau e um lado bom. A parte má foi o de sermos obrigados, em obediência às ordens dos nossos comandos hierárquicos legítimos, a virar as nossas armas contra aqueles nossos concidadãos que, legitimamente, aspiravam à liberdade e ao direito de se auto-governarem.

A parte boa foi a enorme riqueza no aspecto do relacionamento humano, uma lição para toda a vida.

Tirando aquela parte negativa, e a dureza da vida nos campos de batalha da Guiné, passadas quase quatro (4) décadas dessa experiência, julgamo-nos com toda a legitimidade moral para poder afirmar que foi uma honra e um privilégio, ter comandado durante dois anos, os soldados que a pátria nos confiou (os melhores do mundo, pela sua dedicação,  lealdade, a sua coragem, a sua generosidade e a sua humildade) do meu Grupo de Combate e da minha companhia, a Companhia de Artilharia nº1690, após ter caído em combate, em 21 Agosto 1967, o meu Capitão, Manuel Carlos da Conceição Guimarães, Capitão de Artilharia.

Quantas privações, quantos sacrifícios e perigos enfrentamos juntos, com total dedicação, lealdade e entrega, sem o mínimo de recusa e de hesitação, partilhando a mesma ração de combate, dormindo lado a lado, no mato, nas emboscadas, à chuva, e ao alcance previsível das armas do nosso Inimigo de então.

Quantas e quantas noites de vigília, escuras como breu, ao lado uns dos outros, horas passadas sem uma palavra, sem um gesto, num silêncio total, noites sem fim, à espera da próxima vitória, que seria o nascer de um novo dia.

Com a mesma legitimidade consideramos uma honra e um privilégio ter como comandante supremo na Guiné, um grande General, António Sebastião Ribeiro de Spínola, infelizmente já falecido.

Um excelente Comandante, um Patriota, um Humanista, e um excepcional condutor de Homens nos campos de batalha.

Nas visitas que nos fazia, nos mais perigosos cenários, trazia-nos sempre uma mensagem, que era uma lição para aquelas ocasiões, mas também para a vida, e um estímulo para enfrentarmos, com maior coragem e mais apurado sentido de dever, a árdua e difícil missão em que estávamos envolvidos.

Uma das mensagens que jamais poderemos varrer da nossa memória, foi a seguinte:

Vençamos o nosso inimigo.

Mas uma vez vencido, não podemos nem devemos, humilhá-lo.

Tem de ser tratado com toda a dignidade, sarar-lhe os ferimentos, se os tiver e alimentá-lo como os nossos, em consonância com a generosidade do nosso Povo, abstendo-nos de todo e qualquer acto de tortura e/ou violência gratuita.

António Martins Moreira

Advogado

(Alferes Milº. Infª. “Operações Especiais”

(C.Artº. 1690 – Guiné 1967/1969))

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
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Uma Resposta a VENCER O INIMIGO. HUMILHÁ-LO NUNCA! – António Moreira

  1. Felicito o Dr. António Moreira por nos trazer este tema, num país que teimosamente esquece os Seus melhores. Sei do que fala, da Guiné e depois de Moçambique de 1971-74.
    Estou seguro que muitos como nós vão ler e aplaudir o Amigo.
    Eu faço-o com orgulho.
    Director

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