SONHANDO O FUTURO DE OLEIROS

Dr. Fernando Silva

Cheguei apressado ao Aeroporto Internacional de Joanesburgo e lá acabei por me acomodar no Airbus da Air France rumo a Paris, donde a seguir me levariam até Lisboa no início de março último. O coração fervilhava agora com pensamentos imaginados, desligando-me dos relacionados com os afazeres da vida que deixava para trás. Soltavam-se criativamente, como se se tratasse do desenrolar dum sonho, enquanto espreitava pela janelinha do avião e via lá em baixo por entre as raras nuvens os enormes montões de terra extraída das profundas minas de ouro e mais tarde o belo escuro da noite africana.

Percorria mentalmente Oleiros com as suas aldeias e vilas nas montanhas, ao lado do Rio Zêzere, ou da ribeira. Por momentos lembrava o que foram as aldeiras, como as suas gentes se vestiam para ir ao domingo à vila e se aglomeravam na praça em frente ao Café Alvelos. A taverna do regedor era ali mesmo ao lado e o velhinho edifício que albergava a Câmara Municipal lá estava com as suas janelas e a cadeia em baixo. A igreja então sobrepunha-se a tudo e a todos na acrópole oleirense. Mas tudo mudou. Só a igreja continua lá a encimar a geografia e…. São marcantemente visíveis por todo o lado os sinais de transformação experimentada no concelho. Ninguém o pode negar. E as gentes também devem ter mudado bastante se bem que aí nem sempre tão seguramente. E num flashforward imaginei o que seria o futuro nesta terra querida que me viu nascer.

Imaginei que Oleiros pertencia a uma região autónoma que se afirmava rapidamente como parceira económica e social na União Europeia. É que o centralismo tradicional português já não respondia às legítimas aspirações das gentes humildes e trabalhadoras da região, porque as sugaram à distância, a partir do Palácio dos Viscondes de Oleiros em Castelo Branco e….

Por entre imensos barquinhos a remos imaginei navios do tipo “cruzeiro” a flutuar no Rio Zêzere, agradavelmente deslocando casais em férias, jantando e dançando ao som de grupos musicais locais convidados. Imaginei um bingo e um casino – se bem que não goste lá muito desta actividade por uma questão de princípios – a operar na vila, e esta parecia uma espécie de mini Principado do Mónaco atraindo muitos ricos indivíduos. Imaginei franchisings como a Mc Donalds ou a KFC a negociar prosperamente por todo o lado. E havia uma faculdade de turismo ligada à Universidade da Beira Interior instalada na região para a preparação de alunos, vocacinando-os para todas as áreas do negócio do turismo. E este tinha obviamente várias vertentes.

As velhas casas das aldeias e das vilas eram recuperadas respeitando a sua traça antiga e cultural. Museus erguiam-se e agentes culturais estabeleciam-se para preservar os trajes, os utensílios domésticos e laborais, os costumes e os produtos das terras da região. E estes eram visitados por imensos visitantes nacionais e estrangeiros. Jogos tradicionais eram preservados com cuidado e promovidos por meio de campeonatos onde os oleirenses participavam às centenas. Restaurantes exploravam-se com sucesso. Bibliotecas abriam-se ao público.

A Câmara Municipal estabelecera uma Comissão de Promoção do concelho a nível nacional e internacional. A estratégia fundamental era apresentar o concelho como “paraíso” que é, que acomodasse gentes da classe média europeias e outros. Faziam-se acordos com organismos de segurança social de vários pontos da Europa que enviavam os seus membros para viverem o resto das suas vidas nas tais casas velhas restauradas das aldeias oleirenses. E obviamente que o negócio da saúde aumentara prosperamente com médicos e enfermeiros disponíveis por todo o lado para atenderem às necessidades dos oleirenses e dos novos vizinhos estrangeiros e nacionais. As escolas de línguas ensinavam os oleirenses a comunicar corretamente com esses gentes diferentes. Clubes sociais acolhiam essas pessoas providenciando oportunidades de jogar o bowling, o criket, e de assistir aos jogos dos campeonatos internacionais de râguebi e de desportos diversos dos nossos, com cerveja e fish & chips em abundância. Enquanto isso, empresas de viagens transportavam os turistas de cá para lá visitando o Zêzere, as sedes de Freguesia, os miradouros com visão maravilhosa como o da Serra do Muradal, os inúmeros circuitos pedestres ou as praias fluviais. Explicava-se a história de Oleiros e dos oleirenses em várias línguas. E muitos jovens vinham de todo o mundo para desfrutarem dos imensos desportos radicais instalados na região. Desportos como o do gigantesto bunjee jumping lá para os lados dos Meandros do Zêzere na vila de Ávaro, ou os asa delta e os planadores que descolavam do aeródromo da Isna na Serra de Alvelos. Aproveitava-se a neve e explorava-se a prática do ski e os desportos de inverno. No final do verão lá estavam as desfolhadas que envolviam a todos como um negócio próspero para os aldeões. E o campo de golfe de qualidade internacional atraía também muitas pessoas da classe alta enquanto potenciava negócios, que continuavam a ser abordados no Hotel Solar de Oleiros, aquele alí ao lado da igreja de Oleiros que fora adquirido e transformado num hotel de luxo para gente fina.

Exploravam-se todos os potenciais das terras e das serras que eram vendidos com imagem diferenciada nas Lojas de Promoção de Oleiros abertas para o efeito em Londres, em Paris, em Bruxelas, em Berlin, em todas as capitais dos países nórdicos europeus e dos países da CPLP, assim como em Lisboa e no Porto. A apicultura produzia mel diferente de flor de carqueja ou de flor de estevas, que era devidamente apresentado aos clientes em frascos atrativos. As indústrias da caça e da pesca eram promovidas e os visitantes comiam dessas carnes e peixes nos restaurantes da região enquanto as peles curtidas eram vendidas nas interessantíssimas lojas de artesanato e cultura. Haviam vários viveiros de trutas e de salmões a operar na região bem como herdades reservadas à caça grossa. As flores das carquejas, das tílias e das camomilas que abudam nas várzeas junto aos ribeiros eram apanhadas para chá, que depois de devidamente embalado era vendido também nas tais lojas de promoção. A Comissão Para a Promoção de Oleiros aconselhou e a Câmara Municipal decidiu conforme; que toda a agricultura da região seria de ora ávante somente biológica. E as caixas das nabiças, das doces batatas de sequeiro amarelas e dos tomates viajavam em aviões de pequeno porte que diariamente aterravam e descolavam do Aeroporto Internacional de Oleiros para serem vendidos aos clientes das Lojas de Promoção de Oleiros. Os queijos do azeite, a marmelada, os doces de chila, os ovos, o leite e a carne de cabrito e de ovelha, os presuntos e os enchidos fumados eram vendidos como todos os outros excelentes produtos da região com certificados de qualidade.

Várias empresas engarrafavam as puríssimas águas que levaram os romanos a chamar à região Olleiros (olhos de água), e as vendiam nos mercados internacionais, fazendo fortunas e dando oportunidades de trabalho e de lucro aos oleirenses. Fábricas de mobílias estabeleceram-se e produziam em moldes de design contemporâneo e competitivo. Empresas de construção civil aprimoravam-se na reabilitação das antigas casas dos povoados. Contabilistas apoiavam as empresas. Agentes bacários fomentavam os negócios. Deambulavam inúmeras pessoas por todo o lado, de todos os walk of life, refletindo o mundo cosmopolita que se respirava agora no futuro. E nas ruas desfilavam os Porshe, os BMW, os Ferrari, os Lamborghini, os Bentley….

Cheguei a Oleiros. E as idéias imaginadas podem vir a tornar-se mais que fantasia.

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