O FAROL, por António Graça

 

António Graça (Eng)

Nota: O presente texto não segue as regras do novo acordo ortográfico

Acreditamos que, a maioria dos portugueses tinha, em maior ou menor grau, a consciência do mau estado em que um bando de chicos-espertos, irresponsáveis deixou o país, e que tal facto iria justificar a adopção de medidas duras para corrigir a situação, sob pena de Portugal entrar numa crise tão profunda, que o faria recuar décadas nos seus níveis de desenvolvimento e atiraria os portugueses para níveis de pobreza inimagináveis. Daí que, as medidas anunciadas pelo actual governo tenham sido aceites, com maior ou menor crítica, mas, sem excessos ou perturbações sociais significativas, pelo menos até agora.

É um facto, que ninguém fica satisfeito ao ver-lhe retirada uma parte daquilo que é o fruto do seu trabalho, e muito menos o fica quando essa situação foi provocada pelo desbaratar dos dinheiros públicos para a satisfação de interesses privados.

Podemos dizer que, actualmente, os portugueses trabalham para pagar impostos e Portugal vive para pagar dívidas.

Também parece não surpreender ninguém que o buraco das contas públicas seja maior do que o que tinha vindo a público. Este facto revelou desde logo a fraca qualidade de alguns políticos que elegeram imediatamente, como seu objectivo político a discussão sobre o adjectivo a colar ao desvio ; colossal, abismal, piramidal…? Enfim, a pobreza de espírito do costume, também associada ao folhetim do secretário de estado que não chegou a ser.

Voltando à situação do país, continuaremos assim por muito mais tempo?

 É a interrogação que todos fazemos.

Não necessariamente, mas, para inverter a situação é necessário, conforme já afirmámos por várias vezes nestas linhas, fazer crescer a economia.

Como o dinheiro disponível das famílias é cada vez menos, o crescimento da economia não poderá ser feito pelo aumento do consumo interno, o que, aliás, parece não ser o mais desejável, já que importamos quase tudo o que consumimos.

Teremos então de nos virar para o aumento das exportação e da produção daquilo que consumimos, pelo menos no ramo alimentar.

Para atingir o primeiro objectivo referido, terá de haver uma grande aposta nas empresas exportadoras, sobretudo nas médias empresas e naquelas que demonstrem capacidade de inovação e de produção de bens com grande valor acrescentado.

Para esse fim, existem fundos, entregues à gestão das agências governamentais de apoio à economia.

Essas mesmas agências, que necessitam de ser repensadas, para deixarem de ser ninhos de burocratas e lugar de repouso para desempregados de cargos políticos. Existem milhões de euros, em aplicações financeiras, que deviam ser canalizados para o apoio à economia.

Temos empresas nacionais, como os agora tão falados ENVC– Estaleiros Navais de Viana do Castelo, que podem constituir pontas de lança da nossa economia.

Aliás, o caso dos ENVC é emblemático do desperdício das potencialidades nacionais, senão vejamos:

Os ENVC têm uma história de 67 anos no ramo da construção naval. São um dos maiores estaleiros de construção naval da Europa Ocidental, têm pessoal altamente qualificado, equipamentos tecnicamente actualizados e instalações adequadas e bem localizadas.

Ao longo dos seus 67 anos de vida, foram ali construídos mais de duzentos navios de diversos tipos e aplicações, desde navios mercantes a navios de pesca, e até navios de guerra.

Porquê então a situação a que se chegou?

Salvo melhor opinião, é um caso de má gestão.

Um estaleiro de construção naval, é uma empresa como outra qualquer, tem de ter uma estratégia comercial activa, produtos inovadores, capacidade de resposta, procurar novos mercados, etc., não pode viver de negócios virtuais com qualquer estagiário para ditador sul-americano, cuja palavra vale o que vale, nem pode ser administrado por uma administração passiva.

Os actuais administradores, que custam cada um 110.000€ anual à empresa, não trouxeram, em um ano do seu mandato, nenhum negócio para os estaleiros. Também não se percebe a razão porque se foi buscar um administrador a Espanha, ao qual se pagam as deslocações semanais a casa. Em Portugal há gestores com competência superior para ocupar o lugar.

Parece que, agora se pretende resolver a situação da forma mais fácil, entregando os estaleiros à gestão privada, sob a forma encapotada de uma parceria, vocacionada para as energias alternativas. Pode ser uma solução de continuidade, mas não é uma solução de futuro.

 Não somos contra a gestão privada das empresas, até porque o Estado já demonstrou não ter competência para as gerir, uma vez que sujeita sempre a gestão a interesses políticos, mas, entregar os estaleiros de Viana é mais um passo no virar de costas ao mar, que é a nossa maior riqueza.

Olhos nos olhos

 

O Jornal de Oleiros e O Farol, pautam a sua orientação pela Independência e pela Frontalidade.

Foi nessa linha que O Farol foi um activo crítico do governo de Sócrates, e os factos vieram, infelizmente, a dar-nos razão.

Será esse o mesmo tipo de actuação que seguiremos com o actual governo, ou com quaisquer outros poderes instituídos ou com aspirações a virem a sê-lo.

Nesse sentido, parece-nos oportuno deixar aqui algumas perguntas a que o Sr,. Primeiro-Ministro deveria responder aos portugueses “olhos nos olhos”.

Como dissemos anteriormente, parece-nos que a maioria dos portugueses entende que o estado a que o país foi conduzido implicaria a adopção de medidas difíceis, o que parece ser difícil de entender é o seguinte:

– Não são apuradas responsabilidades pelo sucedido?

– Porque é que são sempre os mesmos a fazer os sacrifícios, os que vivem do seu salário ou reforma, e outros não contribuem com nada, falamos dos rendimentos de capital dos beneficiários de dividendos, de mais-valias, etc.?

– Porque é que nos são pedidos sacrifícios para ajudar os bancos, quando estes não ajudam ninguém e andaram anos e anos a ter lucros fabulosos, recorrendo a todos os artifícios fiscais para pagarem o mínimo possível de impostos?

Esta ajuda, feita com o sacrifício dos portugueses, devia ter uma contrapartida, por parte dos bancos. Por exemplo, estes, ficarem impedidos de cobrar “spreads” superiores à taxa de referência dos créditos que contratam. Hoje há bancos a cobrar o dobro, é agiotagem

Será o Senhor Primeiro-Ministro capaz de dar, olhos nos olhos dos portugueses, respostas satisfatórias a estas questões.

-A propósito de bancos, pode explicar-nos as razões da oferta dos despojos do BPN ao banco angolano, ou melhor, ao grupo Amorim e a Isabel dos Santos?

Alguém disse, decerto um poeta sonhador, que “ os governos são eleitos para proporcionar o bem-estar dos povos”.

Sr Primeiro-Ministro, as suas deslocações em classe turística, em nada contribuem para o bem-estar dos portugueses. Poderá mesmo Vossa Excelência, e perdoe-se-me o tom humorístico, passar a deslocar-se em balão ou em asa-delta, que o efeito será o mesmo. Poderá a Drª Assunção Cristas, permitir que os seus colaboradores/as passem a ir para o seu ministério, vestindo uma simples tanga, que tal facto, embora condizente com o estado do país., não trará mais bem-estar aos portugueses, com excepção talvez de alguns grupos de mirones

O bem-estar dos portugueses depende da percepção clara do que lhes é pedido e da justificação e utilidade das medidas tomadas e das respostas, entre outras, às perguntas que anteriormente deixámos feitas.

Até breve

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
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