“Crónicas de Lisboa” por Serafim Marques

Dr. Serafim Marques

E Se o Povo Fizesse Greves?

A CP tem vindo a fazer, desde há tempos, greves cirurgícas, isto é, um dia fazem os revisores e os maquinistas não, pelo que os comboios não circulam. Depois, aderem os maquinistas. Assim, em dois dias de greve da CP, os trabalhadores apenas perdem um dia de salário! Outras greves se anunciam e desta vez a “cirurgia” é ainda mais requintada, porque dos dias já marcados, um antecede o feriado do 10 de Junho (uma sexta feira) e o outro  no feriado de Lisboa (uma segunda feira).

Por (muitas) razões que os trabalhadores possam ter, o povo, cliente ou não da empresa e pagador dos impostos, não entende estas greves, ainda mais numa altura em que o nosso país atravessa uma terrível crise, tal como crise atravessa, desde há muito tempo, a CP, cujo déficie de exploração e endividamento é um monstro e que vai ser pago com os nossos impostos, pois as receitas de bilheteira não cobrem as despesas. Numa empresa pública com esse déficie e prestando um  serviço público, essencialmente à classe trabalhadora que utiliza o comboio nas suas deslocações para e do trabalho (nos dormitórios das grandes cidades ), muitos milhares deles a ganharem apenas o rendimento mínimo (RM), é, socialmente, justa essa greve? É que, garantidamente, esse déficie, cuja parte é influenciado pelos salários pagos aos trabalhadores da companhia e que, presumo, não auferem o “RM”, vai ser pago pelos impostos de todos os portugueses, incluíndo aqueles com rendimentos inferiores aos dos trabalhadores grevistas.

Uma equipa da televisão japonesa, que veio, em Abril, fazer uma reportagem sobre Portugal e se deparou com um conjunto de  greves, estranhou isso e disse: “no Japão não há greves porque  trabalhadores e empresas não são inimigos”. Também há tempos, ouvi, na televisão, um português, que trabalha naquele país, dizer o seguinte: ”Aqui, no Japão, os trabalhadores tratam bem os clientes da empresa, porque sabem que o seu salário depende destes. Mas também, os patrões tratam bem os seus empregados, porque os seus lucros dependem dos trabalhadores”. Claras atitudes dum povo que ainda recentemente foi “desvastado” por desastres terríveis (sismos, “tsumani” e acidentes nucleares) e que, heroicamente, labuta para continuar na senda do progresso e do bem estar e que tem, pelo trabalho, um elevado culto, pois sabe que sem este, combinado com o “capital”, não se cria riqueza para distribuir. A nós, portugueses, custa-nos entender isto? O nosso actual estádio de desenvolvimento e da crise que nos atrofia diz tudo. “Palavras para quê?” – slogan dum antigo anúncio da tv portuguesa.

Em Portugal e normalmente, as greves são contra as empresas, mas “servindo-se” das vítimas (clientes, sem a qual a greve não tem impacte, como citou há dias um dirigente sindical da CP), mas esta e outras greves nas empresas públicas ou mesmo nos serviços do Estado, são também contra os cidadãos contribuintes que com uma greve acabam por perder duplamente, isto é, não são servidos (neste caso com o transporte e que lhes provoca, muitas vezes também perdas no salário) e que muitos já pagaram e ainda acabam por suportar as consequentes perdas através dos seus  impostos. Que incoerência e falta de solidariedade da “classe trabalhadora” para com os seus pares também eles trabalhadores. 

O pessoal de cabine da TAP (presumo que não inclui os pilotos) veio agora também anunciar um conjunto de dez dias de greves, também elas “cirúrgicas” de modo a afectar quer os portugueses, muitos deles emigrantes de visita ao nosso país,  quer os turistas que se deslocarem a Portugal, em protesto contra  uma medida que, na minha opinião, é uma decisão de gestão e, como tal, da esfera e da competência da equipa de gestão da companhia. Será legítimo que o sindicato interfira num medida deste cariz, dado que esta não  interfere  com os direitos dos trabalhadores? Quem é o “dono da empresa e, como tal, responsável pela sua gestão e sobrevivência, ainda mais se ela for também uma empresa pública e cujo déficie é também pago pelos contribuintes? Também nesta greve da TAP, se ela avançar, os prejuízos directos e indirectos  para o nosso país (um turista “dá dinheiro a ganhar a muita gente” e este é um  sector de vital importância para nós) são enormes e, com a mesma surpresa, num período que a todos os portugueses são pedidos grandes sacrifícios.Também, esta greve custa a entender, mesmo que muitos milhões de portugueses, ao contrário da CP, não prevejam voar de e para fora do nosso país. A situação é tão ridícula, quer pelo motivo quer pela inoportunidade (nem neste periodo de transicção governativa os sindicatos dão tréguas?), que uma companhia concorrente e operando nos voos “low cost” (de baixo custo), a irlandesa Ryanair, já “parodiou” com a situação (enviou dez rosas – uma por cada dia de greve anunciada – e um cartão com uma frase ao sindicato), mesmo sabendo que pode extrair ganhos, se a greve da TAP não for desconvocada, pois muitos passageiros“fugirão” para a concorrência. Nos meus quase cinquenta anos de trabalhador por contra de outrem, nunca fiz uma greve e, em muitas delas, não fui, directamente, afectado, mas confesso que a maioria das greves me entristecem e revoltam por concluir, empiricamente confesso, que os trabalhadores com o “RM” ou pouco mais, não fazem greve, porque o salário perdido lhes faria muita falta. E a responsabilidades dos gestores dessas empresas? Fiz-me entender? Nessas situações, apetecia-me liderar o “sindicato do povo prejudicado pelas greves”. E se o povo usasse a mesma arma (a democrática greve) contra os grevistas “pagos” pelas próprias vítimas, recusando adquirir esses serviços e levando as empresas à falência? Não seria justo? Pessoalmente, ainda não perdi a esperança de ver os sindicatos portarem-se como parceiros e não como inimigos das empresas, a razão de ser da classe que representam. Ou tal só acontecerá quando “alguém lhes quebrar a espinha”, – citando um político já falecido? Por que será que nas empresas privadas as greves são raras?   

Serafim Marques

Economista

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
Esta entrada foi publicada em Destaques, Economia. ligação permanente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *