Das rochas nasceu a história das florestas

Uma das primeiras formas utilizadas para estudar a evolução das plantas, e ainda hoje o registo mais completo, é através dos fósseis contidos em certas rochas sedimentares e vulcânicas.

Uma delicada flor, e mesmo um microscópico grão de pólen ou um esporo, em determinadas condições, podem ficar preservados nas rochas por milhares ou mesmo muitos milhões de anos, sob a forma de impressões ou restos petrificados, aquilo a que chamamos fósseis. Essas condições ambientais foram e são especialmente propícias em zonas pantanosas, nos leitos de cheia dos rios ou mesmo durante a deposição de poeiras numa erupção vulcânica. Conhecendo a idade das rochas onde estes fósseis ocorrem numa região, e comparando com outras jazidas fossilíferas, podemos ficar a saber como é que as florestas se modificaram ao longo da História da Terra, à medida que se deram as grandes modificações geográficas e climáticas. Se os paleontólogos são os cientistas que estudam os fósseis, os paleobotânicos são especialistas na evolução do registo fóssil das plantas. Em Portugal, destaca-se o trabalho do Prof. Carlos Teixeira que, desde a década de 40 e por 30 anos, estudou as principais jazidas fósseis de plantas conhecidas no nosso país.

As primeiras plantas vasculares evoluíram a partir de formas de algas carófitas há 420 milhões de anos. Em Portugal, alguns dos fósseis mais antigos foram encontrados em Barrancos, com cerca de 400 milhões de anos, representando formas simples de licopódios e Psilophyton. As explorações económicas de carvões, particularmente abundantes em rochas com uma idade aproximada de 300 milhões de anos, são o testemunho da existência de luxuriantes florestas no passado a latitudes onde estas não existem na actualidade. No nosso país, a Bacia Carbonífera do Douro, hoje em dia já sem viabilidade económica, compreende a mais importante memória dessas florestas de fetos gigantes, onde as ervas e as flores ainda não marcavam a sua presença.

E dos fetos gigantes seguimos para as florestas de sequóias e araucárias, alguns dos maiores seres vivos que alguma vez existiram na Terra, as quais existiram no nosso país há 150 milhões de anos, até ao aparecimento das angiospérmicas. Os aromas e as cores das flores foram sentidos pela primeiríssima vez… pelos dinossáurios herbívoros, há “apenas” 130 milhões de anos. Algumas das primeiras plantas com flor que apareceram no mundo tiveram a sua origem em Portugal, na região de Torres Vedras. Os nenúfares e as magnólias estiveram na base da evolução de insectos tão importantes para o Homem, como as abelhas ou as formigas. Rapidamente as angiospérmicas dominaram o mundo das plantas, tornando este planeta mais colorido e repleto de odores inebriantes.

Há 15 milhões de anos, a Europa possuía um clima subtropical quente e húmido, com estações do ano pouco contrastadas, o que permitia a existência de uma floresta sempre-verde, de folha persistente, conhecida hoje como Laurisilva pela presença de espécies com a folha semelhante à do loureiro. As plantas herbáceas, como as ervas ou gramíneas, hoje fundamentais na alimentação do Homem, apareciam nesta época, timidamente. No Rio Tejo e seus afluentes existia a Annonoxylon teixeirae, um parente da anoneira, cujos troncos fósseis encontrados em Vila Velha de Ródão podem hoje ser apreciados na Casa das Artes. Três outras espécies que abundavam na floresta Laurisilva eram o medronheiro, o folhado e o azereiro.

Com as alterações climáticas das últimas centenas de milhares de anos, a floresta europeia passou a ser dominada pelas caducifólias, como os carvalhos, melhor adaptados a condições climáticas mais mediterrânicas. A Laurisilva é remetida para as ilhas da Macaronésia, com particular destaque para a Madeira e La Gomera, Reservas da Biosfera que foram consideradas Património da Humanidade pela UNESCO. Na Europa continental, os vestígios da Laurisilva do passado são encontrados em pequenas e raras manchas, muitos circunscritas pelas condições geográficas, em pequenos vales profundos e pouco ensolarados, com humidade permanente, e solos preferencialmente ácidos e siliciosos. As espécies da Laurisilva tornam-se, então, verdadeiros fósseis vivos.

Muito recentemente, a Fraga da Água d’Alta, na freguesia do Orvalho, revelou-se ainda mais surpreendente do que por tudo o que já era conhecida. O passado está presente por uma das últimas remanescências da Laurisilva! O raro azereiro (Prunus lusitanica lusitanica), que se encontra no livro vermelho das plantas em extinção da União Internacional para a Conservação da Natureza, aparece aqui com uma população próxima das 300 árvores, apenas num primeiro estudo. O que fazer com esta jóia viva, mas em bruto? O controlo de espécies exóticas invasoras merece um projecto e a aposta promissora que se tem feito no Geoturismo para o Orvalho, por parte da Junta de Freguesia, do Município de Oleiros e da Naturtejo, merece um estudo científico aprofundado e a constituição de um Centro de Interpretação da Natureza para a Fraga da Água d’Alta.

A história contida nas rochas e revelada pelos fósseis mostra-nos um planeta dinâmico, onde os continentes se movimentam, os climas se alteram, as espécies se extinguem ou evoluem. Do seu conhecimento retiramos a importância conferida a este património. Neste Ano Internacional das Florestas, por que não fazer história e valorizar a Fraga da Água d’Alta, protegendo-a enquanto Monumento Natural de importância nacional?

Carlos Neto de Carvalho

Geólogo

Geopark Naturtejo da Meseta Meridional – UNESCO European and Global Geopark

Legenda para as fotos – Fósseis vivos e plantas fósseis: Azereiros do Orvalho e a Laurisilva preservada em tufos vulcânicos (Museu Machado Fagundes, Angra do Heroísmo)

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