REINVENTAR PORTUGAL 8: Raízes da Cultura Ocidental – (6) filosofias gregas na cultura ocidental Por Fernando Silva

Dr. Fernando Caldeira da Silva

Nascido cerca de 384BC Aristóteles ensinou na Academia de Platão e fundou mais tarde outro tipo de escola a que chamou o Lyceum que veio a incorporar o sistema educativo português como “liceu”. Entre outros contributos Aristóteles foi o pai da lógica formal no ocidente e contribuiu com a sua coleção de tratados e as suas opiniões éticas e políticas para influenciar a vida atual. Na sua filosofia abordou o problema da responsabilidade moral destinguindo entre as virtudes morais e as virtudes intelectuais. Inclinado às questões políticas educou o que mais tarde viria a ser Alexandre o Grande; que com o seu vasto império helénico veio a terminar a era da cidade-estado, alterando assim o conceito para estado-global, (que veio a ganhar mais fulgor com o império romano).

Além destas, outras filosofias foram também desde há muitos séculos praticadas na nossa terra – que veio a tornar-se Portugal – como as seguintes: Pyrrho introduziu o conceito de septicismo com a esperança de se atingir a quietude. Carneades desenvolveu o conceito como um método de inquirição que mostre os limites do bom senso e da razão, instrumentais para abrir avenidas para se entender a essência das coisas. Aristippus desenvolveu o conceito de Sócrates da importância de se gozar a vida e da sua admissão de que o prazer é também parte legítima da vida boa. Pensava que tudo na vida acaba afinal por se resumir ao desejo de prazer e à aversão à dor, e por isso a sua filosofia enfatizava a importância de cada momento presente. No entanto, apesar de Epicurus concordar com esta filosofia julgava que os prazeres intensos acabam por provocar ainda mais dor e portanto devem ser abandonados. A noitada com embriaguez acaba em desgraças diversas e na ressaca da madrugada. Para esta corrente de pensamento – que também se instalou entre as nossas gentes – o melhor da vida é vivê-la o mais possível livre de perturbações. E quanto à morte achavam estes filósofos ser o melhor antídoto o materialismo porque depois do corpo baixar à sepultura já não sente nada e assim a morte não é nada. E na linha destes Epicureu abstinha-se do envolvimento com a política vivendo uma filosofia de escape.

Por outro lado Antisthenes opunha-se filosoficamente a Aristippus; e com os seus correligionários – como Cynic – viviam a vida como pedintes, tentando imitar a vida dos animais em todas as formas possíveis. Não se preocupavam portanto com metafísicas e julgavam ser a natureza o modelo melhor para se viver a vida e não um campo de estudos científicos. E o seu estilo de vida era chocante e atípico numa sociedade avançada e desenvolvida como a helénica, chocando toda a moralidade convencional.

O estoicismo de Diogenes, Stilpo e Crates estabeleceu no ocidente a fundação da importância da vida identificada com a virtude na existência terrena, repleta dos contributos da lógica, da física e da ética. Esta filosofia era monoteista, e assim Deus era o pai de todas as criaturas e protanto todos os seres humanos são irmãos. E desta forma a comunidade humana é a realidade cosmopolis ou cidade universal.

O impacto da visão política helénica estabeleceu colónias que hoje são Lisboa e Évora com elevado grau de desenvolvimento para a época. E questiono-me o que teriam pensado os seguidores de Aristóteles se viessem hoje visitar Lisboa acabados de chegar dessas paragens habitadas por gente inteligente e culta que como Aristóteles julgavam ser o melhor estado o do direito e da lei, e onde os cidadãos prosperam devido à organização social excelente, onde a corrupção não corrói porque a filosofia da vida social é praticada na base da ética. Nesse estado de interação social avançado os cidadãos acabam por dar imenso valor à arquitetura e às belas artes, pelo que são e não meramente por romantismo. Temo – no entanto – que muitos sigam mais quer a filosofia de Aristippus ou a oposta de Antisthenes. Oxalá abandonemos a filosofia epicurista de escape já neste ato eleitoral, e acorramos às urnas eleitorais para votar nesta hora difícil que nos chama a todos a nos envolvermos nas questões políticas da nossa pátria. E que também o estoicismo de Diogenes com os seus discípulos Stilpo e Crates nos ajude a encontrar o caminho para o monoteismo bíblico, que nos permita considerar Deus como pai e cada ser humano como irmão; De modo a desenvolvermos uma comunidade fraterna de realidade social cosmopolita do tipo universal e não mais provincianista, mesquinha e caduca.

(Continua no próximo artigo)

Por Fernando Silva

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