Inépcia versus Excelência, Manuela Marques

 

Dra. Manuela Marques, Professora

           

 Inépcia versus Excelência

 

            A sociedade actual privilegia, cada vez mais, a mediocridade em vez da excelência. E a verdade é que estamos habituados, pelo menos os mais atentos, a depararmo-nos com ela e a reconhecê-la, pois é suficiente um génio destacar-se para que sete néscios o tentem logo aniquilar, sem dó nem piedade, porque ele se evidencia pela anormalidade, isto é, a excelência. Vivemos num mundo com tendência para a normalidade e esta normalidade verifica-se em atitudes e acções simples do nosso quotidiano: a uniformização, o consumismo, a imitação e a manipulação. Ora, raramente, um génio se deixa manipular ou vive para o consumismo e muito menos imita os outros ou vive para proceder da mesma forma que o resto do mundo. Imaginemos, então, que o mundo não tivesse conhecido Mozart, Einstein, Colombo, Picasso, Gandhi,  Pablo Neruda, Blaise Pascal  e tantos outros génios na sua especialidade, pois ser genial não é ser perfeito, não é saber ou conhecer tudo, porque isso pertence ao mundo da impossibilidade. Que seria de nós sem os génios/os excelentes? Vingaria o egoísmo (eu e só eu), o materialismo (serei sempre aquilo que possuir) e o comodismo (jamais farei um esforço) ao contrário daquilo que cada génio pode trazer ao mundo, o altruísmo: olhai os Médicos do Mundo, a Madre Teresa de Calcutá; o espírito aventureiro: vede os descobridores portugueses dos séculos passados e os astronautas do nosso presente e do nosso futuro; e o idealismo: apreciai os filósofos, os escritores, os poetas…e a busca incessante da perfeição que move os génios e os talentosos.

            A excelência tendencialmente gera ódios e desperta invejas, assim como revolta nas mentes alheias, pois quem se destaca pela genialidade, usualmente, não é compreendido nas suas boas intenções, basta observar ao longo dos tempos a forma como o Homem encontrou soluções para lidar com génios/talentos que cometeram a loucura de se afirmar nas suas convicções. A Inquisição foi uma forma eficaz de perseguição em nome de um outro génio, cujo intento principal foi mostrar ao homem o amor fraterno, mas como foi sinalizado logo como alvo, foi abatido pela mediocridade, pela inépcia.

            E na educação? Na escola formamos as mentes pela excelência e para a excelência? Todos tentamos dar o nosso melhor contributo às crianças, aos jovens, prepará-los para o futuro, no entanto, o nosso sistema não preconiza a genialidade, investe mais na uniformidade. A profissão de professor, em Portugal, em poucos anos, passou do oitenta ao oito, querendo isto dizer que já pertencemos à camada da excelência, porém, nos dias que correm na mente dos medíocres não passamos disso mesmo. Ao contrário de certos países, como é o caso da Finlândia, em que o professor tem enorme prestígio social e este é um dos cursos com mais requisitos e mais difícil de conseguir, daí que campanhas como aquelas que são levadas a cabo no nosso país, contra a nossa profissão, não fazem sentido algum em países como aquele pequeno país nórdico que investe na busca dos seus génios latentes. Não é por acaso que a Finlândia está na lista de países com Índice de Desenvolvimento Humano muito alto (O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é uma medida comparativa de riqueza, alfabetização, educação, esperança de vida, natalidade e outros factores para os diversos países do mundo). Cá, todos aprendem o mesmo, todos aprendem dos mesmos manuais e fazem as mesmas provas, porque, dizem os “especialistas”, a igualdade de oportunidades é fulcral. É, sem dúvida, mas procurar e fomentar a excelência para a qual cada um de nós está disposto é deveras crucial. Todos temos algo de especial que devemos explorar, sem medos e receios daquilo que os outros pensam e nós educadores temos um papel fundamental na demanda dessa genialidade entre os aprendizes. Ser genial não depende só das boas notas na escola, do dinheiro que se tem ou da classe a que se pertence. Um rei pode ser um medíocre na sua governação, pois não sabe rodear-se de pessoas competentes e um lavrador pode ser um génio, porque sabe apreciar a beleza de uma paisagem ou aquilo que é notável, brilhante.

            Muitos génios optam pela discrição, outros optam ser tomados por loucos para escaparem às malhas e às redes lançadas pelos medíocres. Contudo, o Homem não consegue viver sem o Grupo e ninguém consegue viver sozinho ou isolado, a misantropia não é uma característica humana, por isso todos temos de conviver, socializar e tanto a mediocridade (o consumismo, o materialismo, o conformismo…) como a excelência, a genialidade/o talento têm lugar no mundo e juntos são um motor imprescindível. Se todos fossemos criadores geniais, o mundo seria um caos.

            A procura da excelência leva o individuo a suplantar-se e consequentemente a ser incompreendido, o que gera instabilidade e sensação de fracasso, acontecimento este que jamais cerca a mediocridade, pois, quem assim é, contenta-se com a vida que leva.

           

Maria Manuela Marques

           

 

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Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
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4 Respostas a Inépcia versus Excelência, Manuela Marques

  1. Fernando Caldeira da Silva diz:

    Parabéns. É desta abordagem que Portugal precisa e muito em particular os nossos jovens. Promova-se a criatividade excelente e o país se transformará rumo à modernidade desenvolvida. Plaudo de pé caríssima amiga Drª Manuela Marques.

  2. Manuela Marques diz:

    Dr. Fernando Caldeira da Silva
    Quanta amabilidade nas suas palavras! Agradeço.
    Lutaremos sempre pela excelência!

  3. Um excelente artigo!
    Parabéns!
    O materialismo realmente anda rasteiro seguindo a lei da inércia em direcção ao buraco negro!

    • Manuela Marques diz:

      Dr. António Justo,
      Os meus cumprimentos.
      Agradeço as suas palavras e a leitura do artigo e claro está, concordo plenamente com o seu comentário. Porém, tenho esperança que mude de rumo a tendência para o abismo…

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