REINVENTAR PORTUGAL 7: Raízes da Cultura Ocidental – (5) filosofias gregas na cultura ocidental

A atividade intelectual grega produziu filosofias que prevalecem como origem essencial do desenvolvimento do pensamento ocidental. Pitágoras, por exemplo, enfatizou a moral, os rituais, e a importância de alcançar intelectualmente a natureza da realidade, através da atenção às disciplinas matemáticas e científicas que acabaram por formar moldes do pensamento europeu. Thales iniciou a tradição de inquirir e investigar a natureza da realidade última que é a phisys, a base de todo o fenómeno. Leucipo e Demócrites foram filósofos que estabeleceram a pluralidade do movimento qualitativo e quantitativo das partículas o que para eles era a base da realidade, uma filosofia genuinamente materialista e mecânica explicando a realidade da natureza.

Os filósofos gregos debruçaram-se sobre o tema da realidade ulterior e da verdade epistemológica monoteísta como Xenafanes (570-480 BC) que acreditava num único Deus verdadeiro. Para ele o Deus verdadeiro não tinha forma física nenhuma. Imanente no universo não depende dos sentidos humanos para a sua experiência. É o todo que vê, é o todo que pensa, é o todo que escuta. Ele é o organizador inteligente de todos os processos. Sem esforço Ele estabelece tudo em movimento pelo pensamento da Sua mente. Empodocles foi outro dos filósofos gregos monoteístas.

Nascido cerca de 470 BC Sócrates iniciou o grande período do pensamento especulativo. O seu estilo de vida foi cosmopolita do tipo burguês. O melhor para ele era a cidade com o teatro, o ginásio, o mercado público, e a convivialidade dos banquetes. Antes dele já Anaxagoras tinha introduzido o conceito de nous (mente). No entanto Sócrates desenvolveu o método da pesquisa com a dialética. E pensava servir a filosofia o propósito de atribuir significado e valor à vida humana. Para ele, saber significava um relacionamento íntimo e um compromisso absoluto da pessoa que procura saber com a essência do conhecimento. E com as suas investigações filosóficas tornou-se assim num dos mais respeitados contribuintes da aventura que formou o pensamento ocidental. Acima de tudo inspirou Platão aquando do seu julgamento e execução assegurando que a sua influência não morreria com ele mas que estabeleceria um impacto duradouro nas gerações seguintes que apesar de manterem lealdade à suas sociedades filosóficas reconheceriam acima de tudo que deviam lealdade superior à verdade transcendental.

Dando visibilidade à filosofia de Sócrates Platão (nascido em 428 ou 427 AC) desenvolveu o seu próprio pensamento filosófico estabelecendo a primeira universidade do mundo – a “Academia” – usando então já o ensino à distância por correspondência. A inovação deste meio foi extraordinária e invulgar; mas eficaz, contribuindo para a treinamento de líderes políticos influentes naqueles tempos. Os cursos mais importantes eram a matemática, a astronomia, a lógica, a física, a biologia e acima de tudo a filosofia e a ética. Para Platão, qualquer homem de estado devia compreender as verdades intemporais e ser devidamente educado e treinado para servir os cidadãos através das tarefas do governo. Assim, o principal objetivo e missão da universidade era a “produção” de estadistas que governassem bem os seus países.

Platão estava preocupado com a procura e a aquisição do conhecimento como o bem mais precioso na terra, usando conceitos como episteme – a essência da verdade – ou ideai (eide) – as ideias universais como essências de toda a realidade inteligível. Para ele a alma humana é unitária e eterna mas temporariamente alienada da realização das “ideias” desde que encarnara. E assim o estudo da filosofia era a disciplina através da qual a alma tenta recolher as verdades ocultadas ou distorcidas pelas mudanças do mundo dos sentidos e das paixões. Por isso apreciava o mundo da experiência baseado em parte no fato de que os objetos sensoriais são reflexos das essências verdadeiras. O ideal bom – que é a Forma das formas – precisava de outro tipo de conhecimento aplicado e assim surgia o bom homem ou o bom estado, processo que para se entender exige esforço empírico que perscrute as condições reais da sociedade. O que é o bom homem ou o bom estado? Eis a questão a que a ética e a filosofia política deve tentar responder e que produzirão a moral necessária para liderar. Mais do que procurar descobrir o bom no indivíduo ou no grupo deve procurar entender-se primeiro o que é essencialmente ser bom, ideal a ser seguido por indivíduos e sociedade.

Platão pensava que para haver o desenvolvimento harmonioso dos vários ingredientes da vida  sob a direção da razão intelectual deve entender-se que a felicidade pessoal ou coletiva (social) depende da virtude e esta não existe sem o conhecimento. Por isso apresentou a sua perspetiva com três partes como faculdades da alma humana: A mais baixa era a faculdade do apetite, dos desejos de satisfação das necessidades – reais ou imaginárias – físicas e outras; o espírito estava imediatamente acima dessa parte baixa e com ele o ser humano tentava superar-se aventurando-se a abilidades que aprendia; e nos lugares cimeiros da alma o ser humano tinha a razão com os seus processos racionais e que governa idealmente os outros dois elementos da alma referidos e mantém a harmonia entre os três. E o processo da utilização da razão produz a virtude da sabedoria resultando em auto-governação apropriada. E com esta sabedoria prática a alma está em harmonia e a virtude da justiça surge à tona da vida diária nos afazeres do indivíduo e na vida social. Sabedoria esta que Platão entendia como ser-se um bom homem ou um bom estado com uma vida moral e ética temperada que não pode ser aprendida ou vivida isoladamente mas como resultado da interação social desde pequeno através do sistema de ensino providenciado pela sociedade.

Com este pensamento apareceu o espírito urbano tão querido da civilização ocidental. De fato, a ideia da urbanidade vem do reconhecimento da impossibilidade do ser humano viver bem isoladamente. A vida humana genuína não se vive na sua plenitude em isolamento, requerendo que o indivíduo perceba que está intrinsecamente ligado ao macrocosmos social em que está inserido, adquirindo as mesmas virtudes e faculdades e os mesmos defeitos e vícios dos outros indivíduos que lhe são comuns. Sócrates já anteriormente tinha sugerido na sua Repúplica que a anatomia da justiça – que é o estado apropriado final do ser humano ou do estado – pode ser explorada mais facilmente no microcosmos do que no macrocosmos. O conceito da sociedade como um todo era vista como se devesse providenciar lei e direito a todos os cidadãos bem como prosperidade, segurança e benefícios. Ou seja, todas as classes sociais deviam ser devidamente protegidas e requerer-se delas também a sua devida e justa participação no bem social e economia geral. Todos os cidadãos deviam ter oportunidades iguais e ambos os sexos deviam ser tratados em termos iguais o que implicava que para se aspirar a este ideal a educação era de importância fundamental. Porque o fator que determina a posição do indivíduo na sociedade é equivalente ao nível que atingiu em sabedoria pessoal e o sistema instrucional e educativo torna-se assim na base dessa promoção da sabedoria individual e portanto a escola ou a universidade são as instituições mais importantes na sociedade. Educação teórico-prática que deve ser providenciada a todos, incluindo ambos os sexos, sem exceção.

Mas Platão pensava ainda que a par da educação para todos a política e a organização social eram também dignos de honra e uma necessidade para a promoção do bem estar social da sociedade. A lei e o direito deviam ser para todos os membros da sociedade quer governantes quer sujeitos. E tanto Platão como muitos outros filósofos consideraram a democracia como a forma ideal de organização social e se os líderes políticos se envolverem em disputas efémeras e mesquinhas outras formas inferiores de organização social podem substituí-la, como a timocracia (dominada pelo espírito sectarista) ou a oligarquia (dominada por proprietários e que exclui a maior parte dos cidadãos). Chamaria hoje a esse governo aquele controlado pelo FMI. Este tipo de governo tem a sua relevância pontual para resolver alguns problemas na sociedade se for de curta ou média duração; caso contrário arruinirá as vidas da maior parte dos indivíduos e causará uma eventual revolução, com o estabelecimento duma nova ordem social e outra democracia. No entanto, para Platão, caso a democracia não vingue e se estabeleça de novo, o caminho político daí é negativemente descendente rumo à tirania. O seu conceito de estado ideal era avançado para o seu tempo e deve tornar-se o modelo do estado moderno português; civilizado, obrigado pela ética da lei e pelo direito, e governado pela razão e pela sabedoria.

(Continua no próximo artigo)

Por Fernando Silva

Esta entrada foi publicada em Oleiros. ligação permanente.

6 Respostas a REINVENTAR PORTUGAL 7: Raízes da Cultura Ocidental – (5) filosofias gregas na cultura ocidental

  1. Firmo Ferreira diz:

    Caro Amigo Fernando Caldeira,
    Exelente o seu artigo, estou expectante na continuação.
    Parece que não valeu de nada a estes filósofos gregos a sabedoria aqduirida em que tantas sociedades se regem por conceitos humanistas. Santos da casa não fazem milagres, veja-se o estado em que está o Estado dos gragos. De facto o pensamento e o conceito filosófico de democracia de Platão era correcto e avançado para a época e assim deveria ser. Como diz o António Barreto esta guerra é de “rapazotes” cheios de manias e de birras. Neste momento os governos não governam mas somos dominados por simples agências de rating.
    Um abraço
    Firmo

    • Amigo
      Agradecemos a atenção de nos ler e acompanhar e apoiar este percurso difícil.
      Fernando Caldeira da Silva é um enorme Amigo que nos Honra com a ajuda/participação que oferece.
      Estive na semana passada com ele no CCBe, se o admirava…hoje, esse sentimento cresceu.
      Saudações,
      Director

  2. Cheguei a este artigo pela notícia que li na página inicial do Facebook. Li e apreciei o discorrer do pensamento filosófico grego desde Pitágoras a Platão. Deixo aqui os meus parabéns ao autor Fernando Silva, meu caro amigo e companheiro de longa data.

  3. Fernando Caldeira da Silva diz:

    Caríssimos, agradeço as doces palavras.
    Abraço a todos

  4. Manuela Marques diz:

    Palavras para quê? Excelente artigo Dr. Fernando Caldeira da Silva.
    Os meus cumprimentos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *