CRÓNICA À DISTÂNCIA 6: Características das Gentes de Oleiros e do Pinhal

Olhem para esta imagem lindíssima dum pedaço de Oleiros excelentemente captada por Carlos Reis

Tratemos agora das “características das gentes de Oleiros e do Pinhal”. Dentre todos os portugueses, os beirões, as gentes da Beira Baixa e autóctones da Região do Pinhal e particularmente de Oleiros são diferentes. Aqui devemos abordar várias características deste povo especial, como a fisionomia, a língua, os conceitos, os costumes e a fibra rara de caráter interior.

A fisionomia de nariz pontiagudo que lhes permite respirar mais facilmente o ar fino e frio das serras bem como o tradicional cabelo preto e pele de tez morena são características que nos marcam e diferenciam. Quando as nossas gentes se aglomeram nas feiras e aos domingos notam-se-lhes as semelhanças entre si e como são diferentes de outros com os seus traços graves e firmes e os olhos cor de azeite ou da cor da carcódia dos pinheiros. Marcas e traços de raízes familiares comuns, de origens ancestrais, quiçá vestígios dos seus antepassados que há muitos milhares de anos saíram da Mesopotâmia deambulando pelo norte de África até passarem o mar e se instalarem na Península Ibérica, muito antes dos romanos, dos visigodos e dos mouros. E por certo os invernos rigorosos e a teimosia das pedras em não quererem providenciar alimentos mais ricos obrigaram as nossas gentes a esforços quase sobre-humanos para os vencerem. Os primeiros aguentando-os à roda das lareiras nas cozinhas pretas de tanto fumo e as últimas partindo-as e removendo-as até se tornarem hortas sustentadas por paredes construídas nos socalcos das montanhas. Este braço-de-ferro foi um enorme e milenar esforço de almas e de braços tal que lhes esculpiu os corações, os rostos e os corpos, mas que enfrentaram com sorrisos e cantares à desgarrada ou em conjunto por entre os milhos e as culturas das batatas trabalhando de sol a sol.

O português das nossas gentes é também diferente devido às permanentes faltas de comunicação com gentes de outras regiões. É que as estradas e vias de acesso são apenas caminhos sinuosos construídos há muito por líderes de massas com mentalidade doutros tempos que as nossas gentes nunca se levantaram para contrariar, talvez por percebermos no fundo que nos faltavam as palavras apropriadas. É que ninguém nos ensinou melhor. O nosso sotaque é notoriamente diferente. Que o digam a minha mulher e os meus filhos quando passo uns dias com eles em Oleiros, rindo de mim por intuitivamente me expressar e relacionar com os da minha terra de modo que lhes parece engraçado e arcaico. Mas é o português que comecei a escutar ainda no ventre da minha mãe e que todos falavam à minha volta, e que convenhamos está certíssimo, não acham? Trocamos o “v” pelo “b” como bons “v”eirões que somos, e pronunciamos palavras com o som de “tch” em vez de “ch” como por exemplo nos casos de “tchamiço” (chamiço), “tchaubi” (chave), “tchourizo” (chouriço), “arroze” (arroz), e “grabanço” (grão-de-bico). Tio e tia pronunciam-se como “t’” e “ti” como nos casos de “t’João” ou “ti-Maria”. Ciganos são chamados de “caganos”. E aglutinamos sons numa amálgama especial em frases como: “Ó bezinhe, bás à bila? Be se bes lá o me co carre”. Ou ainda o que nos contavam em criança: “A Anzilda do Semam promete-me um burrassade no antonte amanhim e nunca más mo trazeu.” E muitos dos da nossa terra pensam no íntimo que é assim que se devia escrever porque doutra maneira soa mal.

A mentalidade das nossas gentes assenta na praticidade da vida agreste na serra com uma franqueza frontalmente arrepiante do tipo “pão, pão, queijo, queijo”. A falta de informação estabeleceu em nós um paradigma mental que estranhos consideram arcaico, retrógrado, e deformado. Mas o feitio firme permaneceu inalterado e se traçamos um risco ninguém passa dum lado para o outro sem briga e resistência. E desta forma mostramos quem somos aos outros, conseguindo o que os outros nem imaginam ser possível de conseguir quando nos aparece uma oportunidade como aconteceu com o Comendador Horácio Roque. Quando queremos mudamos de pensar com rapidez estonteante ao percebermos o erro com os seus danos. Sem depender de ninguém, muito menos da administração central nacional ou provincial, arregaçamos as mangas e de maneira sisuda enfrentamos as situações mais adversas com afinco e determinação tal como com rosto de seixo também Cristo enfrentou a cruz, superou-a e levantou-se. E quando nos dão acesso à informação apreendemo-la depressa, sem medo ou dúvida, prontos a mudar se é para melhor. Então o que precisamos é de informação acertadamente provada e não de opiniões perversas que nos entravem o passo rumo ao desenvolvimento. O que precisamos é de espaço para usarmos o lado direito do cérebro em criatividade de pensamentos e ideias frescas.

Quanto aos costumes ninguém nos “bate”. Gostamos do que é nosso mais do que tudo o resto. O nosso milho amarelo é o melhor do mundo (como prova a broa de Isna). Como o chá de carqueja não há igual. A aguardente medronheira ganha cada vez mais fama noutras paragens lá longe. Os nossos enchidos e o modo de preparar e curar o presunto são inigualáveis, resultando em gosto deliciosamente maravilhoso. A nossa marmelada é verdadeiramente de marmelos que crescem livremente às bordas dos ribeiros, nas várzeas e nos profundos córregos dos lados das montanhas. O nosso vinho é muito melhor, claro… A indumentária com tendência característica tradicional para utilizar o castanho, o preto e o branco é cortada às vezes com cores mais garridas que nos embelezam as mulheres e dignificam os homens. Cantamos justos as janeiras, e ainda durante as sementeiras e as colheitas, e convocamos imediatamente a corda para chorarmos e enterrarmos juntos os nossos mortos. E a família enlutada não cozinha durante uma semana porque os vizinhos acodem com dejua, almoço, jantar, merenda, ceia e ceote sem faltarem as guloseimas de sobremesa ímpar, a limonada, o vinho e o café. E que dizer dos serões de desfolhada concorridos e acompanhados pelo som do harmónio ou das piadas picantes contadas enquanto esmagamos os canhos para enchermos as pipas. Fantástico e diverso de tudo e de todos.

Por isto tudo sei que as nossas gentes sobreviverão a todas as crises inventadas e fomentadas em Lisboa, Bruxelas ou Nova Iorque. Com determinação, espírito de sacrifício e de trabalho superaremos todos os obstáculos e adversidades que nos advenham, e venceremos, construindo uma terra cada vez mais frutífera e justa para todos os que cá vivem, nos visitam ou beneficiam do que temos de bom para lhes vender ou dar.        

Por Fernando Silva 

Orgulhosamente Oleirense na África do Sul

PS: Por pretendermos divulgar e angariar amigos para o nosso Jornal de Oleiros, peço aos nossos estimados leitores a gentileza de me enviarem os contactos de todos os nossos compatriotas oleirenses – e da região do Pinhal – quer sejam amigos ou familiares a residir algures na África Austral para: (1) Por correio eletrónico, fcdasilva@gmail.com; (2) Por carta, P.O. Box 25673, Lakeside Mall, Benoni North 1527, South Africa; (3) Por SMS, +27842961437. Obrigado.

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