Viajar para Oleiros (I), por João Ramos

Jornal "Heraldo de Oleiros" nasceu em 1927

Viajar para Oleiros (I)

1. Introdução – A emigração

Vivendo numa região montanhosa, agreste, isolada, de parca riqueza e muito trabalho, na alma das gentes das nossas terras, a aspiração de melhorar a vida e de encontrar melhor sorte para os seus é tão velha como o povoamento e o labor do desbravar das serranias, vales e pequenas planícies, no esforço de fabricar da terra a subsistência, o pão de cada dia.

Das aldeias e casais sempre saíram homens que tentaram a sorte noutras paragens. Sempre com o secreto desejo do regresso com pecúlio acumulado, para melhorar a vida dos seus e garantir uma velhice menos apertada. Nem sempre regressaram. Nem sempre melhoraram a vida. Mas sempre foram decisivos no progresso e desenvolvimento das nossas comunidades. Todos nós temos ou tivemos familiares emigrados e compreendemos bem esse ímpeto, a inquietude e a angústia de quem deixa o lugar da sua infância. Tal como conhecemos e já participámos na alegria do regresso.

Sem preocupação de grande minúcia, podemos destacar vários períodos e fenómenos migratórios até ao presente.

Até aos finais do século dezoito, saíram para integrar milícias e exércitos, para exercerem funções eclesiásticas, ou para ingressar em ordens religiosas. No segundo quartel desse século, deu-se o surto de emigração para Lisboa e Brasil. Ao longo do século XX, continuou a saída para Lisboa, sobretudo até finais dos anos cinquenta. O grande surto de emigração para a Europa, para França e outros países ocorreu nos anos sessenta. África tornara-se outro destino importante, desde os anos cinquenta, mas, sobretudo nos anos sessenta.

Na actualidade e já desde os anos oitenta, com excepção de casos pontuais e da emigração sazonal para países europeus, a emigração acentuou-se. As mudanças na economia local, o fim da agricultura de subsistência, da exploração da resina e das pequenas actividades locais, ditaram a saída para a procura de emprego para as cidades, nomeadamente para capital de distrito. Essa tendência reforçou-se com a generalização do acesso ao ensino superior que leva os jovens para as cidades universitárias e daí para outros pontos do país onde encontram o emprego adequado ou possível.

As mobilizações militares do século vinte merecem referência e lugar muito especial nas nossas memórias. São realidades migratórias específicas, forçadas e temporárias. A mais recente afectou a generalidade dos jovens nascidos nos anos de 1940 a 1954 com a mobilização para as guerras coloniais de Angola, Guiné e Moçambique. A anterior e já longínqua, fora a mobilização para a Primeira Grande Guerra, de 1914-1918. Nesta, partiram para a barbárie das trincheiras da Flandres, no Corpo Expedicionário Português. Outros partiram pelos mares até ambientes inóspitos de aventura mas também de desconforto e sobrevivência difícil, na defesa ou recuperação de parcelas das colónias de Moçambique e Angola, disputadas pelo exército inimigo alemão, inicialmente com discreta complacência e acordo do aliado inglês.

2. – Emigração, viagens e  vias de comunicação

Registar a odisseia da diáspora das gentes do concelho, de todo o concelho é quase uma obrigação para os oleirenses de Hoje. Registar os êxitos e realizações dos emigrados, mas também as suas lutas, frustrações e insucessos. O seu regresso ou a sua fixação nos países e regiões que os acolheram. Desafiamos os leitores a contar as suas histórias pessoais, ou de pessoas suas conhecidas, através do Jornal de Oleiros.

O conhecimento das nossas emigrações é fundamental para a percepção da nossa identidade histórica, cultural, social e económica.

Esta é uma primeira referência  sobre a nossa diáspora (emigração). Um desafio aos leitores para novos artigos ou envio de informação sobre os emigrados.

Sob o título “Viajar para Oleiros” agruparemos um conjunto de textos através dos quais vamos relembrar a evolução nas vias de comunicação e meios de transporte para o concelho.

3. – A utopia

“Viajar para Oleiros” será, ainda, uma oportunidade para dar enfoque à necessidade de completar o processo de construção e melhoria de vias de comunicação que ainda possam reverter a actual desertificação de pessoas gerando novas actividades económicas. Estamos certos de que as autoridades locais estão atentas e despertas e lutam pela concretização das vias mais relevantes, financeira e politicamente realizáveis. Perdoar-se-nos-á uma certa digressão pela utopia, própria do exercício diletante e da ausência de responsabilidades de poder. Utopia que terá, ao menos, a virtude de inspirar reflexão, ambição colectiva e esforço de acção comum no desenvolvimento do concelho. Ao futuro compete distinguir na utopia o realizável e o inviável.

A utopia de que falamos fica circunscrita às vias rodoviárias. Está longe a utopia do caminho-de-ferro defendida nas primeiras décadas do século vinte, por regionalistas e políticos convictos, versada em numerosos artigos de imprensa e objecto de iniciativas políticas muito concretas. Uma linha férrea com diversificadas propostas de trajecto. Ora, partindo da região de Tomar passando por Ferreira do Zêzere em direcção a Cernache do Bonjardim, Sertã, Oleiros, Estreito, Castelo Branco. Ora, com início mais a norte, na região de Ourém, passando por Figueiró dos Vinhos, Cernache, Sertã, Oleiros, Orvalho, Fundão, Espanha (por Monfortinho). Dessa utopia fica, também, a constatação de que o objectivo central que a ditava, de quebrar o isolamento desta vasta região de serras e florestas, ainda não está concretizado. Todas as estradas modernas, entretanto construídas, contornaram Oleiros que não beneficia, ainda, de itinerários de fácil e rápido acesso à rede de auto-estradas,  itinerários principais e complementares mais próximos.

Uma boa estrada para a Sertã, Cernache, Ferreira do Zêzere, completaria a ligação adequada e mais curta a Lisboa. Uma boa estrada de Oleiros a Castelo Branco, com percurso cómodo e de tempo reduzido de uma hora para cerca de vinte minutos permitiria residir no concelho e trabalhar na área de Castelo Branco. Afiguraram-se, agora, como prioridades essenciais, para o desenvolvimento local. Parecem projectos concretos que poderão realizar-se no curto e médio prazo.

Vias melhoradas para Coimbra e para o Fundão seriam factores de diversificação de actividades comerciais e de progresso turístico.

Utopia, que, se concretizada, seria a chave de uma nova economia local e da coesão concelhia, com a neutralização dos riscos de fragmentação e dispersão dos serviços públicos essenciais (como a saúde e justiça) e mesmo dos riscos de extinção do concelho. Parece decisivo para o futuro criar uma rede integrada de vias de comunicação interna concelhia, a partir das vias já existentes, com a construção de outras complementares.   No quadro de um plano de desenvolvimento local, essa rede inserir-se-ia na concretização de dois objectivos de desenvolvimento.

O primeiro desses objectivos seria o desenvolvimento e aproveitamento das potencialidades económicas oferecidas pelo rio Zêzere. De Cambas à Madeirã, deveria poder circular-se ao longo do rio, o mais próximo possível das águas da albufeira. Deveriam construir-se pontos de acesso ao rio e outras estruturas de apoio para actividades fluviais e turismo de natureza. A orografia das encostas ribeirinhas apresenta-se como obstáculo difícil. Porém, há soluções para ultrapassar esses obstáculos, contornando esforços financeiros incomportáveis.

O segundo objectivo prende-se com a coesão social e demográfica do concelho. É necessário viabilizar actividades económicas em todas as áreas do concelho e não apenas na sede. Seja a recuperação de actividades e produções agro-pecuárias tradicionais, com aposta na qualidade e genuinidade locais. Seja a viabilização de indústrias de prestação de serviços, por pequenos empresários locais e comercialização nos maiores centros regionais e nacionais. Seja a promoção de actividades de turismo rural e da natureza. Seja a instalação de prestadores de serviços em teletrabalho. É necessário manter e melhorar  as condições de fixação de pessoas nos povoados e aldeias, pelo menos em alguns dos mais importantes, facilitando-lhes o acesso às condições de vida a que, nos dias de hoje, com inteira justiça, todo o cidadão aspira.

Um plano de desenvolvimento local que persiga esses dois objectivos tem de propor a melhoria da rede de estradas concelhia e a sua articulação com estradas melhoradas de ligação para os centros populacionais e grandes mercados de consumo e de emprego exteriores: Lisboa, Castelo Branco, Sertã. (Lamentavelmente, a Sertã descura a sua história e a sua natural condição de líder da sub-região numa ultrapassada visão mais própria de tempos de relações de domínio senhorial. Alheia-se da definição e defesa de objectivos e  interesses da sub-região, diluindo a função aglutinadora que daria força a todos os concelhos. Ao limitar-se à defesa de interesses exclusivos, circunstanciais e imediatos, constitui-se força centrífuga  e desagregadora da sub-região, com cada vez maiores ligações a Castelo Branco e Abrantes, em prejuízo das naturais ligações à Sertã).

Uma tal rede concelhia significaria o encurtamento e melhoria de ligações das três distintas áreas geográficas do concelho. O funcionamento de três eixos de circulação a convergir em pontos estratégicos do eixo central constituída por uma estrada melhorada no itinerário Sertã-Oleiros-Castelo Branco.

Em próximo artigo continuaremos na divagação sobre esses três eixos da rede concelhia de vias de comunicação.

João H. Santos Ramos

jhsr_joleiros@netcabo.pt

Nota do Director

O Dr. João Ramos, Presidente do Conselho Editorial do Jornal de Oleiros e um dos Fundadores, inicia esta nova série de artigos que nos entusiasmam e desejamos sejam uma contribuição importante para os nossos Leitores e Amigos.

A interactividade neste jornal é uma marca, razão que nos leva a corroborar o  convite formulado pelo Dr. João Ramos para o envio de contribuições que ajudem a fazer a nossa história e a compreender melhor a região, com uma visão de futuro revelador da atenção que a região merece.

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009.
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5 Respostas a Viajar para Oleiros (I), por João Ramos

  1. Fantástico Dr. João Ramos.
    Admiravelmente bem escrito mas acima de tudo poderoso em sugestões acertadas com visão.
    Parabéns. E bem-vindo.
    Abraço amigo. Fernando

    • Caros Amigos António Graça e fernando Caldeira da Silva
      Antes de mais as minhas desculpas por responder aos dois nesta nota.
      Faz sentido, sômos uma equipa.
      Pessoalmente tomei posição, mas, depois de ver os Vossos comentários e as reacções no Facebook e até de autoridades do nosso Concelho, não posso deixar de classificar esta peça de uma preciosidade.
      pelo que reppresenta de esperança num futuro melhor, mas também por colocar as coisas com o nome próprio, nomeadamente a sub-região.
      O Amigo João ramos sabe do que fala e vive o que diz.
      A ansiedade centra-se agora na continuação da série que iniciou e que apreciamos,
      Director

  2. A. Graça diz:

    Excelente artigo do Dr. João Ramos, estudioso profundo da história do Concelho.
    A qualidade patente desperta as maiores expectativas para os artigos que se seguirão.
    Parabéns

  3. P. Silva diz:

    É verdade … testemunhei como muitos que o rodeavam, o amor às origens, o desejo de partilhar conhecimento o empenho e acima de tudo possuidor de uma visão de futuro. Pena que não tenha ficado mais tempo para partilhar a sua sabedoria … deixa-nos a saudade de um grande Homem no entanto simples e humilde na forma de estar . Bem Haja por tudo o que partilhou ao longo da sua curta Vida …

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