CRÓNICA À DISTÂNCIA II: A Cura da Urbanite, Por Fernando Silva

Mais de metade da população ocidental vive em áreas urbanas e tem de interagir velozmente nesse amontoado de betão e de alcatrão, competindo para sobreviver. As comunicações são estabelecidas às pressas e no Facebook, porque o indivíduo sente o dever de mostrar um nível de vida cosmopolita que lhe é imposto sem saber como. Esse estilo de vida atual inculcado pelo marketing pressupõe a compra da casa, da mobília, do automóvel, a adesão ao clube de ginástica, o pagamento de altas faturas pela educação dos filhos nas melhores escolas disponíveis, das férias nas Seicheles ou no Bazaruto e de coisas do género. Mas também ter de aguentar as filas de trânsito intermináveis constantes que acabam com a paciência dos mais calmos, e ainda sucumbir aos índices de poluição elevadíssimos que superabundam nas grandes metrópoles – sons, fumos, lixos, cheiros nauseabundos, e coisas do género. Não quero nem falar das gentes estranhas com quem temos de conviver diariamente e que nem nos cumprimentam como deve ser. Se fosse na Panasqueira nos tempos do meu avô T’João da Silva, seriam desqualificados da condição de cidadãos honrados, com certeza. Diria: “Olha para ele, nem dá a salvação à gente! Que bicho lhe mordeu? Bom dia nos dê Deus, meu senhor! O senhor não é gente?”

O barulho do despertador corta definitivamente a linha de tranquilidade, obrigando o coração a bater com mais rapidez, logo às cinco da manhã. “Schiii… Lá está este maldito despertador outra vez, nem descansei direito.” Resmungamos contra o despertador como se fosse gente, um ditador terrível que nos força a agir com rapidez e meticulosamente. Que saudade das férias em que nos espreguiçávamos sonolentos, dormindo até tarde todas as manhãs. Caramba, quantos anos nos faltam ainda para a reforma? Perguntamo-nos. Corremos o dia todo, recebemos clientes, atendemos e fazemos telefonemas, resolvemos problemas dos outros, e chegamos a casa “espatifados” por dentro, sem forças anímicas para fazer mais nada. Muito menos cuidar da família. O melhor é comprar uma piza ali ao fundo da rua e trazer também um refrigerante para resolver o jantar em família, a que ninguém assiste. Porque vai dar aquele tal jogo de futebol que o pai tem de ver, e a mãe vai para a outra sala assistir à telenovela. Piza é perfeita para estas ocasiões que acabam por se repetir vezes sem conta. Quando não é piza é algum tipo de “junk food” por certo. Aí lembramos os nacos de presunto bem curado, o chouriço fumado, o maranho, o bacalhau frito, o queijo de cabra seco e preservado no azeite das serras de Oleiros, a marmelada verdadeira e a broa de milho amarelo da terra, servido “à maneira” logo à dejua. Que saudades dessa vida tranquila e de qualidade, apresentada por gentes maravilhosamente simples, que nos interpelam desejando-nos: “um muito bom-dia” ou agradecendo-nos com “muito bem-haja!”

Entretanto conseguimos despejar os filhos no infantário, onde julgamos serem tratados como gente, mas do qual não temos assim tanta certeza. O coração aperta ao darmos o beijinho de despedida ao chegar, mas que vemos não ser percebido pelos filhotes porque ainda não acordaram bem, por ser tão cedo ainda. E à noitinha quando nos voltamos a encontrar estamos tão cansados que nos desligamos uns dos outros imediatamente, nós entretidos com o filme que alugamos no videoclube, enquanto os filhos partem a PlayStation à dedada. Lá damos uns gritos, para lembrar-lhes que somos os pais, e eles olham-nos de soslaio com aqueles olhitos doces e generosos, que nos derretem e demovem de os repreendermos e disciplinarmos. “Fazem o que querem de nós”. Pensamos. Entretanto, mais uns anitos, e muitos deles estão nas drogas. Um flagelo social terrível.

Finalmente é sábado e vamos passar o dia com os amigos no campo. Distraímo-nos imenso, e acaba também por ser bom, porque assim não temos de avaliar a relação familiar e conjugal. Noutra altura tratamos disso com mais calma, pensamos, comprimindo o sufoco que sentimos no íntimo por sabermos que não estamos a dar atenção devida à relação familiar e conjugal. Afinal também precisamos de tratar da vida social da família, desabafamos para nós mesmos sem sequer nos darmos ao trabalho de repensar isso.

Isto é que é vida? Perguntamo-nos. Bem, isto são urbanidades que provocam “urbanite”. Isto são os condicionalismos do cosmopolitismo atual que nos atira às feras da transformação cultural enlouquecida, determinados a secar-nos o “sangue” todo. E que reposta nos dão muitos líderes atuais? Grande parte deles percebem-se como gente intelectualmente “ébria”, ou seja, exatamente como Jonathan Meades acusa de estarem viciosamente envolvidos com “pissocracia”. São um bando de pretensos intelectuais que tentam disfarçar a “embriaguez” a que estão aprisionados, por lhes faltar ideias claras e construtivas para resolver os problemas sociais que nos apoquentam a todos, pensamos. E se muitos líderes apodrecem por dentro nas suas “cirroses existenciais”, muitos liderados atiram-se às drogas de todos os tipos para afogar os sentimentos de desespero que não os largam por nada. É assim que a sociedade mais citadina degrada os seus princípios, valores e significado que outrora lhes foram inspirados por Platão e Sócrates, por Paulo e por Pedro, por alguns germânicos teimosos e outros.

Por panaceia aparecem rapidamente vários filósofos com uma resposta na ponta da língua, mas que obviamente só reflete as suas convicções ou desesperos pessoais. George W. F. Hegel, Arthur Schopenhauer e Jean Paul Sartre sugerem que o melhor da vida é o suicídio, camuflando a ideia pelo seu discurso niilista. E esse foi quase também o conselho de Comte, de Marx, e mesmo de Nietzsche. E por outro lado Emmanuel Kant, Paul Tilich, Jonathan David e muitos outros apresentam um discurso diametralmente mais positivo, acreditando em Deus, que ama a sociedade, e que portanto lhe preparou um futuro e um destino glorioso. Mas, enfim, depois cada um de nós lá tem de decidir-se sobre em quem acreditar. Em todo o caso, não desesperemos, porque enquanto há vida há esperança.

O melhor é voltar à terra, a Oleiros. Que paraíso melhor pode ser encontrado neste planeta Terra. Uma passagem por lá – mesmo que seja rápida – é melhor do que qualquer outra panaceia psicossocial para resolver os problemas do que chamo de urbanite. Umas noites dormidas em qualquer dessas vilas ou aldeias oleirenses reparam os danos mais traumáticos, provocados pela vida citadina, a urbanite. Há cura para a urbanite em Oleiros. Ou seja, um melhor re-encontro com o equilíbrio existencial mais humano e verdadeiro do que a vida em urbanidades.

Fernando Silva.

Orgulhosamente Oleirense na África do Sul

Fernando Caldeira da Silva

Sobre Jornal de Oleiros

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